
Por muito tempo, acreditou-se que as majestosas baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) só davam à luz em águas tropicais, quentes e seguras, onde passavam metade do ano. No entanto, uma nova pesquisa revelou que o nascimento em rotas de migração desses cetáceos na Tasmânia e Nova Zelândia pode acontecer muito mais ao sul do que o esperado, e isso ocorre durante suas épicas jornadas anuais. Essa descoberta desafia o paradigma de que alimentação e reprodução eram separadas, mostrando que as jubartes também se alimentam e realizam outros comportamentos importantes nesses percursos.
Anteriormente, o “corredor de migração” era considerado apenas uma passagem. Agora se sabe que as baleias-jubarte também se alimentam e realizam outros comportamentos importantes nesse percurso, como descanso, manutenção da saúde da pele e compartilhamento de canções. Essa nova compreensão é crucial para a conservação desses gigantes marinhos.
Entendendo o nascimento de jubartes no corredor migratório
Cientistas afirmam que esses resultados exigem uma maior conscientização sobre a expansão das áreas de nascimento de baleias-jubarte para proteger os filhotes. “Centenas de filhotes de jubarte nasceram bem fora das áreas de reprodução estabelecidas”, disse a Dra. Tracey Rogers, autora sênior da pesquisa e ecologista marinha da Universidade de New South Wales. “Ter filhotes ao longo da ‘rodovia das jubartes’ significa que esses filhotes vulneráveis, que ainda não são nadadores fortes, precisam nadar longas distâncias muito mais cedo do que se nascessem nas áreas de reprodução.”
Essa nova descoberta questiona grande parte do entendimento científico sobre a vida das jubartes. Pensava-se que elas passavam os verões se alimentando de krill em águas polares e subpolares de lugares como Alasca, Islândia e sul da Groenlândia, e depois migravam para o sul, para águas mais quentes no Caribe, na costa do México e nas ilhas do Havaí.
A inspiração para a pesquisa veio de um avistamento em julho de 2023, quando a principal autora do estudo, Jane McPhee-Frew, doutoranda em ciências biológicas na Universidade de New South Wales, avistou uma mãe com filhote minúsculo na foz do porto de Newcastle, na Austrália. “O filhote era minúsculo, obviamente recém-nascido. O que eles estavam fazendo ali? Mas nenhum dos meus colegas de turismo pareceu surpreso”, relatou.
A pesquisa por trás do nascimento em rotas de migração
Inspirados pelo avistamento, os pesquisadores investigaram a área de nascimento de filhotes de baleias-jubarte na Nova Zelândia e Austrália usando observações de cidadãos, registros de encalhes e levantamentos governamentais. Dados de levantamentos migratórios foram fornecidos pelo Departamento de Conservação da Nova Zelândia (Cook Strait Whale Project), e informações sobre encalhes de baleias desde 1991 vieram de departamentos de vida selvagem estaduais australianos.
A equipe de pesquisa encontrou registros que incluíam 11 nascimentos, 168 observações de filhotes e 41 encalhes. Informações sobre a direção de viagem de 118 baleias mostraram que elas continuaram a migrar para o norte após o parto. A maior latitude onde um filhote de jubarte foi detectado foi em Port Arthur, Tasmânia — 1.500 quilômetros mais ao sul do que os pesquisadores imaginavam que as jubartes poderiam ter filhotes. O nascimento de maior latitude registrado foi em Kaikoura, Nova Zelândia, um pouco mais ao norte. Esse comportamento de nascimento em rotas de migração é um achado significativo.
O papel do Brasil e a recuperação das populações de baleias-jubarte
A maioria das observações de filhotes vivos de jubartes foi registrada a partir de 2016, com dois terços delas feitas em 2023 ou 2024. Comparações com diários de bordo de baleeiros e textos históricos indicaram que filhotes nascidos na rota de migração já haviam sido observados antes da caça à baleia dizimar a população.
“Acho muito provável que esse padrão sempre tenha existido, mas o baixo número de baleias o obscureceu”, explicou McPhee-Frew. “A população de jubartes do leste da Austrália escapou por pouco da extinção, mas agora existem 30, 40 ou 50 mil indivíduos apenas nesta população. Não acontece da noite para o dia, mas a recuperação das baleias-jubarte e o retorno de sua gama completa de comportamentos e distribuição mostram que, com boas políticas baseadas em boa ciência, podemos ter excelentes resultados.”
No Brasil, as baleias-jubarte são visitantes ilustres e muito esperadas. Nesta época do ano, elas migram das águas geladas da Antártica para as costas brasileiras, especialmente para áreas como Abrolhos, na Bahia, que funciona como um importante berçário natural. Aqui, elas se reproduzem, dão à luz e amamentam seus filhotes em águas mais quentes e seguras, longe dos predadores e com mais tranquilidade. A presença delas em nossa costa é um espetáculo da natureza e um lembrete da importância da conservação marinha e das políticas de proteção que permitiram a recuperação dessa espécie globalmente.
Nota: [1] Este artigo é baseado na pesquisa “Humpback whales (Megaptera novaeangliae) continue migration after giving birth in temperate waters in Australia and New Zealand”, publicada na revista Frontiers in Marine Science. As informações sobre baleias-jubarte no Brasil são de conhecimento público e de órgãos de pesquisa e conservação marinha no país.
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