
A acidificação dos oceanos (AO), fenômeno que causa danos severos a ecossistemas vitais como os recifes de coral, não está apenas piorando, mas já cruzou seu “limite planetário” há cerca de cinco anos. A revelação veio à tona durante o primeiro dia da Conferência do Oceano das Nações Unidas, em Nice, na França, surpreendendo a comunidade científica.
Cientistas haviam alertado em um relatório do ano passado que a AO estava “se aproximando de um limiar crítico”, mas não que já o havia ultrapassado. A acidificação dos oceanos é um dos nove limites planetários definidos para a operação segura da Terra, ao lado de questões como as mudanças climáticas e o uso da água doce.
O que é a acidificação dos oceanos?
Conforme os autores do estudo, a acidificação dos oceanos é uma alteração química de longo prazo na água do mar. Ela é causada principalmente pela absorção de dióxido de carbono (CO2) pelos oceanos, o que leva a um aumento da acidez da água e uma diminuição na concentração de íons carbonato. Essa mudança pode afetar gravemente organismos marinhos, impactando sua fisiologia, crescimento, sobrevivência e reprodução.
Impactos alarmantes e mais profundos
A pesquisa destacou que as condições oceânicas variam amplamente globalmente, com níveis de AO nas regiões tropicais sendo mais de duas vezes maiores que nas regiões polares. No entanto, as maiores mudanças na superfície oceânica estão nas regiões polares. Em águas mais profundas, as alterações mais significativas ocorrem nas áreas adjacentes aos polos e em regiões de ressurgência, como na costa oeste da América do Norte e perto do Equador, conforme explicou Helen Findlay, principal autora do relatório e professora do Plymouth Marine Laboratory (PML) no Reino Unido.
O estudo, liderado pelo PML em parceria com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos e a Oregon State University, concluiu que a ameaça da AO aos ecossistemas marinhos globais é muito mais disseminada do que se imaginava. Em 2020, as condições médias dos oceanos já estavam muito próximas – e em algumas regiões, já haviam ultrapassado – a “zona de perigo” da acidificação.
“A maioria da vida oceânica não vive apenas na superfície; as águas abaixo abrigam muitos tipos diferentes de plantas e animais. Como essas águas mais profundas estão mudando tanto, os impactos da acidificação dos oceanos podem ser muito piores do que pensávamos,” explicou Findlay. Isso tem enormes implicações para ecossistemas submarinos cruciais, como recifes de coral tropicais e até de águas profundas, que servem como habitat essencial e refúgio para muitas espécies, além dos impactos em criaturas que vivem no fundo do mar, como caranguejos, estrelas-do-mar e moluscos.
Perdas de habitat e um futuro em risco
A equipe descobriu que aproximadamente 60% das águas oceânicas mais profundas – até cerca de 200 metros – já haviam ultrapassado o limite planetário para a AO, em comparação com 40% na superfície. Esse aumento na acidificação tem implicações gigantescas para a sobrevivência de muitas criaturas marinhas, especialmente aquelas que constroem seus esqueletos ou conchas a partir de carbonato de cálcio.
Recifes de coral subtropicais e tropicais já perderam 43% de seus habitats adequados. Pterópodes, uma espécie fundamental na cadeia alimentar das regiões polares, também conhecidas como “borboletas do mar”, perderam até 61% de seus habitats. Além disso, 13% dos habitats de espécies de moluscos costeiros foram perdidos em todo o mundo.
Com base nessas descobertas, os cientistas recomendaram uma mudança no limite de segurança anterior. O limite de 10% de desvio dos níveis pré-industriais, considerado prejudicial aos ecossistemas oceânicos, já foi excedido em toda a superfície do oceano por volta do ano 2000.
“A acidificação dos oceanos não é apenas uma crise ambiental, é uma bomba-relógio para ecossistemas marinhos e economias costeiras. À medida que nossos mares aumentam em acidez, estamos testemunhando a perda de habitats críticos dos quais incontáveis espécies marinhas dependem, e isso, por sua vez, tem grandes implicações sociais e econômicas”, afirmou Steve Widdicombe, professor do PML e copresidente da Rede Global de Observação da Acidificação dos Oceanos. “Desde os recifes de coral que sustentam o turismo até as indústrias de moluscos que sustentam comunidades costeiras, estamos apostando tanto na biodiversidade quanto em bilhões em valor econômico a cada dia que a ação é adiada.”
Os autores do estudo sugeriram que as medidas de conservação devem ser direcionadas às espécies e regiões mais vulneráveis à acidificação. Eles também enfatizaram a importância de medidas de gestão adequadas ou proteção de áreas menos comprometidas pela acidificação para garantir sua longevidade.
Os recém-identificados impactos nas águas subsuperficiais destacam uma necessidade urgente de salvaguardar habitats de meia-água e sua vida marinha. Os pesquisadores ressaltaram a importância de abordagens aprimoradas para combater a AO, assim como outras pressões oceânicas, para melhor apoiar uma resiliência ecossistêmica mais forte.
“Este relatório deixa claro: estamos ficando sem tempo, e o que fazemos – ou deixamos de fazer – agora já está determinando nosso futuro”, disse Jessie Turner, diretora da Aliança Internacional para o Combate à Acidificação dos Oceanos, que não participou do estudo, conforme noticiado pelo The Guardian. “Estamos nos confrontando com uma ameaça existencial enquanto lidamos com a difícil realidade de que grande parte do habitat adequado para espécies-chave já foi perdida. É claro que os governos não podem mais se dar ao luxo de ignorar a acidificação nas agendas políticas principais.”
O estudo, intitulado “Ocean Acidification: Another Planetary Boundary Crossed”, foi publicado na revista Global Change Biology.
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