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Biodiversidade da água doce: o futuro dos nossos rios em jogo

No Brasil, nossos rios abrigam uma infinidade de espécies únicas, como o boto-cor-de-rosa.
Foto: Canva.com

Enquanto a atenção global frequentemente se volta para o desmatamento de florestas ou a poluição dos oceanos, uma crise ambiental silenciosa e igualmente devastadora se desenrola sob a superfície de nossos rios, lagos e pântanos. A biodiversidade de água doce está em um declínio alarmante, com pesquisas recentes revelando que muitas espécies que habitam esses ecossistemas vitais estão desaparecendo a uma velocidade sem precedentes. Dados mais recentes do Relatório Planeta Vivo, da WWF, indicam que as populações de espécies de água doce caíram em média 85% entre 1970 e 2020, o maior declínio de qualquer bioma.

Essa realidade preocupante afeta uma vasta gama de criaturas, desde os menores insetos aquáticos até grandes peixes e mamíferos. A saúde de nossos sistemas de água doce é crucial não só para essas espécies, mas para todo o planeta, incluindo nós mesmos. Afinal, a vida em terra e no mar está intrinsecamente ligada à qualidade e à vitalidade desses ambientes preciosos e muitas vezes subestimados.

Por que a água doce está em perigo?

O declínio das espécies de água doce é impulsionado por uma combinação de fatores complexos e interligados:

  • Poluição: Despejo de esgoto, agrotóxicos e resíduos industriais contaminam a água, tornando-a inabitável para muitas espécies.
  • Destruição de habitat: A construção de barragens, o desmatamento das margens de rios e a drenagem de pântanos alteram e destroem os ambientes naturais.
  • Sobrepesca: A pesca excessiva e não regulamentada esgota as populações de peixes.
  • Espécies invasoras: A introdução de espécies exóticas pode desequilibrar ecossistemas nativos, competindo por recursos ou predando espécies locais.
  • Mudanças climáticas: Alterações nos regimes de chuva, secas prolongadas e aumento da temperatura da água afetam diretamente os habitats de água doce.

Quem são as vítimas?

Diversos grupos de animais são as principais vítimas dessa crise. Entre eles, destacam-se os peixes de água doce, que estão entre os vertebrados mais ameaçados do planeta. Um estudo de janeiro de 2025 da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) revelou que quase um quarto (24%) das espécies de animais de água doce avaliadas na Lista Vermelha da IUCN — o que representa pelo menos 4.294 de 23.496 espécies — correm alto risco de extinção.

Nesse grupo, os crustáceos como caranguejos, lagostins e camarões são os mais ameaçados, com 30% das espécies em risco, seguidos pelos peixes de água doce (26%) e libélulas e donzelinhas (16%).

Mas não só eles: anfíbios como o sapo-cururu (Rhinella marina), moluscos, insetos aquáticos (como larvas de libélulas, Odonata) e até mamíferos como a lontra (Lontra longicaudis) e o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) – esse último, um ícone da nossa Amazônia – sofrem com a degradação desses ambientes.

No Brasil, que detém uma das maiores biodiversidades de água doce do mundo, a situação é particularmente crítica. Nossos rios, como o São Francisco, o Paraná e a própria Bacia Amazônica, abrigam uma infinidade de espécies únicas. No entanto, o avanço da poluição urbana e industrial, o desmatamento e a construção desordenada de hidrelétricas representam ameaças significativas a essa riqueza natural. Por exemplo, a anta (Tapirus terrestris), que depende de rios e pântanos, também é impactada pela saúde desses ecossistemas.

O que podemos fazer?

Apesar do cenário desafiador, a esperança existe. Esforços de conservação incluem a criação de áreas protegidas de água doce, a restauração de rios e pântanos, o controle da poluição e a promoção da pesca sustentável. Instituições como a IUCN e o WWF continuam a levantar o alerta e a apoiar projetos que buscam reverter esse quadro.

Para nós, cidadãos, reduzir o consumo de produtos que contribuem para a poluição da água, apoiar iniciativas de conservação e cobrar ações de nossos governantes são passos essenciais para proteger esses ecossistemas vitais e as incontáveis vidas que dependem deles. Nossos rios e lagos são o lar de muitos dos nossos bichos, e a saúde deles é a saúde do planeta.

Pensando na saúde dos nossos rios e lagos, que pequena mudança você pode fazer no seu dia a dia para ajudar a proteger as espécies de água doce que vivem neles?

Por MB.

¹Fontes: IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) – Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas e relatórios técnicos, incluindo estudo de janeiro de 2025. WWF (World Wide Fund for Nature) – Relatório “World’s Forgotten Fishes” (2024) e “Living Planet Report 2024”. Periódicos científicos de ecologia e conservação.

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