
O debate sobre a transição energética ganha novos capítulos sempre que uma figura política de destaque entra em campo. Recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, reforçou sua oposição às fontes renováveis com uma declaração contundente. Trump citou a lentidão das mudanças climáticas, criticando os custos de combate a ela e mirou diretamente a fonte de energia que aproveita a força dos ventos, afirmando:
“Esses pobres coitados ficam falando que… o aquecimento global vai ser tão intenso que os oceanos vão subir 3 milímetros em 355 anos.”
“Enquanto isso, estamos gastando nossa riqueza com essas bobagens.”
“A energia eólica não funciona. É muito cara, mata os pássaros, destrói tudo ao redor.”
“É a energia mais cara. E a cada nove anos, você tem que trocar as turbinas.”
Com essa fala, ele elencou os principais pontos de crítica usados por opositores da energia renovável. Para além do contexto político, é fundamental analisar essas alegações à luz da técnica e da economia, a fim de entender os desafios da energia eólica e o que a indústria e a ciência dizem sobre cada um. O artigo a seguir se propõe a desmistificar ou confirmar esses pontos, oferecendo uma análise didática e objetiva.
Análise do argumento de que “não funciona”
A afirmação de que a energia eólica “não funciona” toca na questão da sua viabilidade técnica e custo, dois fatores centrais para qualquer matriz energética.
O custo real da eólica
Trump alega que a energia eólica é a “mais cara” e exige troca de turbinas a cada nove anos. No entanto, estudos globais mostram que o custo da eletricidade eólica (Custo Nivelado de Energia – LCOE) caiu drasticamente, tornando-a competitiva, e em muitos casos, mais barata que usinas de combustíveis fósseis.
Além disso, a alegação sobre a troca das turbinas é imprecisa. O tempo de vida útil de um aerogerador moderno é de 20 a 25 anos, com a troca de componentes maiores (como o gearbox) sendo a manutenção mais comum, e não a substituição da torre inteira em tão pouco tempo.
Intermitência: o vento para
Este é o desafio técnico mais relevante levantado pelos críticos. A energia eólica é, por natureza, intermitente. Portanto, sua produção depende da velocidade do vento no local da instalação. Quando o vento não sopra, a geração é zero.
Apesar disso, a solução para a intermitência não é descartar a fonte, mas sim investir em infraestrutura de apoio. Isso inclui:
- Armazenamento em baterias: Permite guardar o excedente de energia gerada.
- Geração complementar: Uso de outras fontes (como hidrelétricas ou usinas de gás mais flexíveis) para preencher as lacunas, garantindo a estabilidade da rede.
O impacto na fauna e na paisagem
Os impactos ambientais da energia eólica, classificada como uma fonte limpa, são um ponto de atenção legítimo e que merece ser abordado de forma transparente. É a esse ponto que Trump se refere ao falar que a eólica “mata os pássaros” e “destrói tudo ao redor”.
Pássaros e turbinas
O risco de colisão de aves e morcegos com as pás é um impacto negativo bem documentado. Para biólogos e entusiastas do meio ambiente, esta é uma preocupação séria.
No entanto, é crucial colocar essa mortalidade em perspectiva. De acordo com a maioria dos estudos ambientais, o número de aves mortas por aerogeradores é inferior ao causado por outras estruturas humanas, como linhas de transmissão, edifícios, janelas e até mesmo gatos domésticos. A indústria tem trabalhado com a ciência para:
- Seleção de locais: Evitar rotas migratórias ou áreas de concentração de aves.
- Tecnologia: Pintar uma das pás de preto para aumentar o contraste e a visibilidade para os pássaros.
- Monitoramento: Uso de radares e inteligência artificial para desligar as turbinas quando bandos de aves se aproximam.
Alteração da paisagem
As turbinas eólicas, que podem ter mais de 100 metros de altura, têm um impacto visual significativo. Para muitas comunidades, a instalação de um parque eólico pode ser vista como uma poluição visual que “destrói” a paisagem natural e altera o senso de lugar, especialmente em áreas costeiras e montanhosas.
Além disso, a construção dos parques exige o uso de solo para as bases das torres, estradas de acesso e linhas de transmissão, o que pode levar à supressão vegetal e à fragmentação de habitats em terra (eólica onshore), ou ter impactos subaquáticos com a instalação de turbinas no mar (offshore).
O cenário eólico no Brasil
Para contextualizar a discussão, a energia eólica tem um papel de destaque na matriz energética brasileira, especialmente na região Nordeste, onde os ventos são constantes e fortes.
O Brasil se estabeleceu como um dos principais players globais em energia eólica onshore. O crescimento da fonte tem ajudado o país a diversificar sua matriz e a reduzir a dependência de hidrelétricas (que sofrem com as secas). Portanto, a realidade brasileira demonstra a viabilidade técnica e econômica da eólica, que continua a atrair grandes investimentos e a ser considerada um pilar da segurança energética nacional.
Reflexão para os leitores
O avanço tecnológico tem tornado a energia eólica mais barata e eficiente. Contudo, os desafios da energia eólica relacionados à intermitência, custo de rede e impacto na fauna persistem e exigem atenção técnica e regulatória.
Considerando que toda fonte de energia (incluindo combustíveis fósseis) possui um impacto negativo, seja na forma de poluição atmosférica, gases de efeito estufa, ou acidentes ambientais, a questão fundamental que se coloca é:
Qual é o nível de impacto ambiental que estamos dispostos a aceitar hoje em troca de um futuro energético mais limpo e sustentável?
Por MB.
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