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Visitantes de verão: o que ameaça as aves migratórias no Brasil?

O maçarico-branco reproduz no Ártico e é visto em praias arenosas de todo o Brasil. Foto: Canva.com

O verão marca a chegada de milhares de aves migratórias boreais ao litoral brasileiro. Elas fogem do inverno rigoroso do Hemisfério Norte, percorrendo milhares de quilômetros em busca de descanso e alimento nas nossas zonas costeiras.

Essa conexão global expõe uma crise. Dados da ONU e da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) indicam que cerca de uma em cada cinco espécies migratórias no mundo corre risco de extinção. O Brasil, sendo um ponto de parada fundamental, tem uma responsabilidade crucial nessa luta pela sobrevivência global.

A jornada e os “postos de gasolina”

A migração é motivada pela busca por alimento e pela fuga do congelamento das áreas de reprodução (Ártico, Canadá, EUA).

Para essas aves, o litoral brasileiro, com seus manguezais e lodaçais, funciona como um “posto de gasolina” vital. Aqui, elas repõem a energia (consumindo invertebrados e crustáceos) necessária para a exaustiva jornada de volta. Se falham em ganhar peso no Brasil, não conseguem se reproduzir, afetando a sobrevivência da espécie.

Espécies visitantes ameaçadas

Encontramos diversas espécies viajantes em nosso litoral. Algumas delas carregam o alerta de ameaça de extinção em suas rotas:

Espécie (Português)Nome CientíficoOrigem / Rota PrincipalCategoria IUCNAmeaças no Brasil
Batuíra-de-bando(Charadrius semipalmatus)Reproduz na América do Norte; passa por todo o litoral brasileiro.Quase Ameaçada (NT)Perda de habitat costeiro e perturbação humana.
Maçarico-de-papo-vermelho(Calidris canutus)Rota do Atlântico: migra do Ártico ao extremo sul da América do Sul, utilizando lodaçais brasileiros.Quase Ameaçada (NT)Poluição, destruição de lodaçais e redução de alimento.
Trinta-réis-boreal(Sterna hirundo)Reproduz na América do Norte/Europa; utiliza vastamente o litoral para descanso.Pouco Preocupante (LC)Destruição de locais de descanso e poluição.
Maçarico-branco(Calidris alba)Reproduz no Ártico; visto em praias arenosas de todo o Brasil.Pouco Preocupante (LC)Perturbação causada por veículos e pessoas em praias de descanso.
Falcão-peregrino(Falco peregrinus)Migra da América do Norte; usa o interior do Brasil (cerrado e áreas abertas).Pouco Preocupante (LC)Uso de pesticidas nas lavouras que contaminam suas presas.
Marreca-de-asa-azul(Spatula discors)Reproduz na América do Norte; visita lagoas e áreas úmidas no Nordeste e Sudeste.Pouco Preocupante (LC)Drenagem de áreas úmidas e caça (ilegal).
Maçarico-do-campo(Bartramia longicauda)Reproduz na América do Norte; utiliza campos e pastagens do Sul e Sudeste.Pouco Preocupante (LC)Perda de habitat devido à agricultura intensiva.
Garça-azul(Egretta caerulea)Migração regional; visita manguezais e estuários do litoral brasileiro.Pouco Preocupante (LC)Degradação de manguezais.
Maçarico-de-sobre-branco(Calidris fuscicollis)Reproduz no Ártico; utiliza praias e lodaçais do litoral Sul e Sudeste.Pouco Preocupante (LC)Alterações nos locais de parada pela erosão costeira.
Viuvinha(Hydropsalis forcipata)Migração regional dentro da América do Sul; vista em florestas abertas do Sudeste.Pouco Preocupante (LC)Desmatamento de mata nativa.

O alarme silencioso da extinção

O risco de extinção dessas espécies migratórias está na destruição dos stopovers (locais de descanso) e na contaminação das fontes de alimento. A especulação imobiliária, a drenagem de áreas úmidas e o lixo marinho fragmentam a rota.

“A migração não é apenas uma característica dessas aves, é um reflexo de como a saúde ambiental de todo o nosso planeta está interligada. O que fazemos em uma praia no Brasil tem consequências no Ártico”, explica Peter Marra, ornitólogo e especialista em migração, da Georgetown University.

A morte de um Maçarico-de-papo-vermelho em uma praia brasileira, causada por lixo plástico ou perturbação humana, tem um impacto direto em seu ciclo reprodutivo no Ártico. Proteger os ecossistemas brasileiros não é apenas ecologia local, mas uma obrigação global para a sobrevivência dessas espécies.

O que você pode fazer

A conservação começa nas atitudes diárias:

  1. Lixo zero: Redes de pesca e microplásticos são mortais. Remova seu lixo e, se possível, recolha o que encontrar na praia.
  2. Mantenha distância: Se avistar aves em descanso, não se aproxime. Elas estão exaustas. Se a ave voar por sua causa, ela gastou energia vital para a migração.
  3. Apoie a conservação: Apoie unidades de conservação costeiras que protegem essas áreas de alimentação.

Um chamado à ação e à reflexão

A migração dessas dez espécies não é apenas um espetáculo da natureza, mas um espelho da nossa interconexão com o planeta. Se a vida dessas aves que viajam do Ártico ao Brasil está ameaçada, é porque a saúde dos nossos ecossistemas está em risco.

Proteger um lodaçal em nossa costa é, literalmente, garantir a sobrevivência de um pássaro em outro continente. A crise de extinção não é um problema distante da ONU; é um problema que aterrissa em nossas praias todos os verões.

E você? Já notou a presença de alguma dessas aves migratórias em sua região? O que a sua cidade tem feito para proteger o litoral e as áreas úmidas? Deixe seu comentário e vamos juntos debater a responsabilidade ambiental do Brasil!

Por MB.

Referências:

  • IUCN (International Union for Conservation of Nature). Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas (Dados sobre as espécies: Calidris canutus, Charadrius semipalmatus e outras).
  • ONU (Organização das Nações Unidas). Relatórios sobre a Crise de Biodiversidade e o Risco de Extinção de Espécies Migratórias (Dados de 1 em 5 espécies).
  • MARRA, Peter P. (Pesquisa e Citação sobre a Interconexão Global da Migração de Aves).

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