
O cachorro está quieto, recusou a comida preferida, o focinho parece quente e você começa a se perguntar: será que ele está com febre? Essa é uma das maiores dúvidas entre os tutores de animais de estimação e, infelizmente, muitos ainda acreditam em mitos antigos que podem atrasar o início de um tratamento adequado. Ver o companheiro peludo desanimado gera grande preocupação no lar e exige uma ação rápida e segura por parte da família.
O que a maioria das pessoas não sabe é que o focinho seco ou quente não significa necessariamente que o animal esteja doente. A temperatura corporal dos cães funciona de forma bem diferente da nossa e a única forma realmente confiável de descobrir uma alteração térmica é sabendo como medir corretamente a temperatura do pet. Neste artigo, você vai entender quais são os sinais reais de alerta e como agir para proteger a saúde do seu melhor amigo.
Entenda rápido
- Cachorros podem ter febre e manifestar reações físicas evidentes.
- O focinho quente ou seco não confirma e nem descarta o problema.
- A única forma segura de obter certeza é medindo a temperatura corporal.
- A febre não é uma doença isolada, mas sim um sinal de que algo está errado.
- Nunca dê medicamentos humanos para abaixar a temperatura sem receita.
O que é febre?
A febre é um mecanismo de defesa natural do organismo do animal. Quando o sistema imunológico detecta a presença de invasores, como vírus, bactérias ou inflamações, o cérebro recebe uma ordem para elevar a temperatura interna na tentativa de destruir esses agentes nocivos.
É importante diferenciar a febre da hipertermia. A febre acontece quando o próprio corpo do cão decide aumentar a temperatura por motivos de saúde. Já a hipertermia ocorre por fatores externos, como quando o cachorro fica preso em um ambiente muito abafado ou faz exercícios intensos sob o sol forte, fazendo com que o corpo superaqueça sem conseguir se resfriar sozinho.
Qual é a temperatura normal de um cão?
A tabela abaixo mostra os valores de temperatura considerados normais e quando a febre passa a ser motivo de atenção. Lembre-se de que a temperatura normal dos cães é naturalmente mais alta do que a dos seres humanos.
| Situação | Temperatura |
| Normal | 38,0°C a 39,2°C |
| Atenção | 39,3°C a 39,5°C |
| Febre | Acima de 39,5°C |
| Emergência | Acima de 41°C |
🌡️ Guarde este número: a temperatura normal de um cão varia entre 38,0°C e 39,2°C. Acima de 39,5°C, o animal já pode estar com febre.

Como medir a temperatura corretamente
A aferição da temperatura deve ser feita utilizando um termômetro digital comum, de preferência com a ponta flexível. O processo é simples, mas exige paciência e cuidado para não machucar o pet:
- Prepare o termômetro: Separe um termômetro digital de uso exclusivo para o seu cachorro e higienize a ponta com álcool 70%
- Use um lubrificante: Passe uma pequena quantidade de vaselina líquida ou gel lubrificante à base de água na ponta metálica do aparelho para facilitar a inserção.
- Posicione o cão: Peça a ajuda de outra pessoa para segurar o cachorro de forma firme e carinhosa, mantendo-o em pé ou deitado de lado.
- Via retal: Erga a cauda do animal com cuidado e insira apenas a ponta do termômetro (cerca de 1 a 2 centímetros) no reto do cão.
- Aguarde o sinal: Ligue o aparelho logo após a inserção e espere até ouvir o sinal sonoro (bipe) do termômetro digital.
- Higienize tudo: Retire o visor devagar, faça a leitura dos graus, limpe o aparelho com álcool 70% e lave bem as suas mãos.
Posso usar termômetro de ouvido?
Embora existam termômetros auriculares fabricados especificamente para pets, o uso deles em casa não é muito recomendado. O canal auditivo dos cães tem um formato em “L” bastante complexo, o que torna a leitura imprecisa se o aparelho não for posicionado exatamente no local correto por um profissional. Os termômetros de testa humanos também não funcionam nos animais devido à presença dos pelos.
Sintomas de febre em cães
Quando o corpo está combatendo uma alteração interna, o comportamento do pet muda. Fique atento caso note uma combinação destes sintomas:
- Apatia e desânimo constante;
- Falta de apetite repentina;
- Tremores pelo corpo;
- Respiração muito acelerada ou arquejo;
- Olhos abatidos, vermelhos ou lacrimejantes;
- Sonolência excessiva durante o dia;
- Sinais de desidratação (gengiva seca);
- Busca persistente por locais frios (como o piso do banheiro).
O focinho quente significa febre?
Definitivamente, não. Esse é um dos maiores mitos do mundo pet. O focinho do cachorro muda de temperatura e de umidade ao longo do dia por motivos puramente biológicos e ambientais.
Um cão pode apresentar o focinho quente e seco simplesmente porque acabou de acordar de um cochilo, correu no quintal, pegou sol ou porque o clima da cidade está muito seco e quente. Da mesma forma, um cachorro doente e com febre alta pode estar com o focinho úmido e frio. Portanto, não use esse teste como diagnóstico. Por isso, veterinários não utilizam a temperatura do focinho como critério para diagnosticar febre em cães.
O que pode causar febre?
A elevação da temperatura indica que o sistema de defesa está trabalhando contra alguma ameaça. As causas mais frequentes na rotina veterinária são:
- Infecções: Causadas por vírus, fungos ou bactérias em qualquer parte do corpo.
- Vacinas: É normal o pet apresentar uma febre leve nas primeiras 24 horas após receber uma dose de vacina.
- Infecções urinárias: também podem provocar febre, principalmente em cães idosos.
- Doença do carrapato: Infecções graves transmitidas pela picada de carrapatos infectados.
- Leptospirose e cinomose: Doenças infecciosas graves que exigem isolamento e tratamento imediato.
- Inflamações e ferimentos: Machucados na pele, mordidas de outros cães ou abscessos ocultos.
- Problemas dentários: Infecções severas na gengiva ou raízes dos dentes.
- Doenças autoimunes e câncer: Condições crônicas que desregulam o organismo do animal.
Filhotes, adultos e idosos
Os riscos associados à febre variam de acordo com o momento de vida do pet. Os filhotes são extremamente sensíveis e perdem líquidos muito rápido, o que significa que uma febre não tratada pode causar desidratação fatal em poucas horas. Nos adultos, a gravidade vai depender diretamente da causa da infecção. Já os cães idosos possuem o sistema imunológico mais frágil e órgãos mais desgastados, o que eleva consideravelmente o risco de complicações associadas.
O que fazer se o cão estiver com febre?
Caso confirme que a temperatura ultrapassou os 39,5°C, mantenha a calma e adote medidas de suporte básico. Certifique-se de deixar água fresca sempre disponível ao lado do animal e mantenha-o deitado em um local fresco e arejado da casa.
Não tente forçar o cachorro a comer se ele recusar o alimento, pois o organismo dele está focado em combater a inflamação. Monitore o surgimento de outros sintomas físicos e planeje a ida ao consultório médico o quanto antes.
O que nunca fazer
⚠️ Destaque importante Nunca ofereça medicamentos de uso humano como dipirona, paracetamol, ibuprofeno, diclofenaco ou aspirina para o seu cachorro sem a orientação e o cálculo exato de dose feitos por um veterinário. A grande maioria dos analgésicos e anti-inflamatórios da nossa caixinha de remédios é altamente tóxica para o estômago, fígado e rins dos cães. A automedicação em casa pode provocar hemorragias internas graves, intoxicações severas e colocar a vida do seu amigo em risco.
Quando procurar atendimento imediatamente?
Você deve levar o seu companheiro ao hospital veterinário de plantão sem perder tempo caso note os seguintes sinais de urgência:
- Temperatura corporal acima de 40,0°C;
- Episódios de convulsão ou tremores musculares descontrolados;
- Desmaios ou fraqueza que impede o cão de ficar em pé;
- Vômitos persistentes ou diarreia com presença de sangue;
- Dificuldade respiratória evidente (língua roxa ou azulada);
- Se o paciente em questão for um filhote jovem ou um cão idoso.
Mitos sobre febre em cães
- Mito 1: Focinho quente é febre. Conforme vimos, fatores externos como o sono e o clima alteram a umidade da região.
- Mito 2: Todo cachorro com febre treme. Os tremores ocorrem em alguns casos, mas muitos animais apresentam apenas apatia silenciosa.
- Mito 3: Dipirona sempre resolve. A dosagem para cães é completamente diferente da humana e o uso incorreto pode ser perigoso.
- Mito 4: Febre passa sozinha. Ignorar o sinal pode fazer com que a doença de base evolua para um quadro irreversível.
O que ninguém te conta
A grande verdade que pouca gente revela é que a febre, de forma isolada, não é a vilã da história. Ela é uma reação de defesa necessária que ajuda o organismo a desacelerar a multiplicação de vírus e bactérias. O maior perigo para o pet nunca é a febre em si, mas sim a doença oculta que está provocando essa reação. Combater apenas a temperatura sem investigar a raiz do problema é como desligar o alarme de incêndio enquanto a casa continua pegando fogo.
Vale a pena medir antes de medicar
Saber como agir em momentos de suspeita é uma prova de amor e responsabilidade. Criar o hábito de aferir a temperatura corporal do cão corretamente antes de tomar qualquer atitude drástica evita sustos e fornece dados valiosos para o especialista. Lembre-se sempre de que o manejo correto em casa e o diagnóstico rápido na clínica veterinária podem literalmente salvar a vida do seu melhor amigo peludo.
Colaboração editorial: Dr. Antônio Carlos Almeida, médico-veterinário.
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