
Cientistas descobrem possível bússola interna dos pombos e revelam como animais encontram o caminho
Imagine ser levado para uma cidade desconhecida, a dezenas de quilômetros de distância da sua casa, sem GPS, sem mapas e sem qualquer ponto de referência visível. Ainda assim, você consegue encontrar o caminho de volta com precisão impressionante. Parece impossível para um ser humano, mas essa é uma habilidade que os pombos-correio demonstram há milhares de anos.
Agora, cientistas acreditam ter encontrado uma peça importante desse quebra-cabeça. Um estudo publicado na revista Science sugere que os pombos podem possuir uma espécie de bússola biológica ligada ao campo magnético da Terra, capaz de ajudá-los a se orientar quando o Sol não está visível. A descoberta pode transformar nossa compreensão sobre navegação animal e ajudar a explicar como diversas espécies encontram o caminho em longas jornadas.
Entenda rápido
- Cientistas identificaram uma possível bússola biológica no organismo dos pombos.
- A estrutura pode estar relacionada a células ricas em ferro presentes no fígado.
- O mecanismo parece ajudar na orientação quando o Sol está encoberto.
- Diversos animais utilizam o campo magnético terrestre para se orientar.
- A descoberta pode mudar a forma como entendemos a navegação animal.
Como os pombos conseguem encontrar o caminho?
Os pombos-correio (Columba livia domestica) são famosos por sua capacidade de retornar para casa mesmo após serem transportados para locais distantes e desconhecidos.
Essa habilidade foi tão valiosa ao longo da história que essas aves foram utilizadas para transportar mensagens importantes durante guerras, negociações comerciais e comunicações oficiais muito antes da invenção do telégrafo.
Apesar de séculos de convivência com esses animais, os cientistas ainda não compreendiam completamente como eles realizavam essa façanha.
A descoberta que surpreendeu os pesquisadores
O novo estudo foi conduzido por cientistas da Universidade de Bonn e do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, na Alemanha.
Os pesquisadores investigaram células especiais chamadas macrófagos, encontradas em grande quantidade no fígado das aves. Como essas células armazenam ferro proveniente da reciclagem das hemácias, os cientistas suspeitavam que poderiam ter alguma ligação com a orientação magnética.
Ao analisar o tecido hepático dos pombos, a equipe encontrou algo surpreendente: fibras nervosas capazes de transmitir informações dessas células diretamente para o cérebro.
Segundo o pesquisador Martin Wikelski, diretor do Instituto Max Planck de Comportamento Animal: “O que parece um instinto de navegação pode, na verdade, ter uma base física.”
O que é uma bússola magnética natural?
A Terra funciona como um enorme ímã.
Nosso planeta possui um campo magnético invisível que se estende do Polo Norte ao Polo Sul. As bússolas tradicionais utilizam esse campo para indicar direção.
Diversos cientistas acreditam que alguns animais desenvolveram a capacidade de detectar essas linhas magnéticas naturalmente, utilizando-as como uma espécie de GPS biológico.
Essa habilidade é conhecida como magnetorrecepção.
O papel do ferro nessa bússola biológica
O ferro encontrado nos macrófagos pode apresentar uma propriedade chamada superparamagnetismo.
Em termos simples, isso significa que determinadas partículas podem responder à presença de campos magnéticos.
Os pesquisadores acreditam que essas células funcionariam como sensores extremamente sensíveis, capazes de perceber mudanças no campo magnético terrestre e enviar essas informações ao cérebro do animal.
Como os cientistas testaram a teoria?
Para verificar se os macrófagos realmente participavam da navegação, os pesquisadores realizaram um experimento com 34 pombos-correio.
Metade das aves recebeu um medicamento chamado clodronato, utilizado para reduzir drasticamente os macrófagos presentes no organismo.
No dia seguinte, os animais foram levados para um local situado a aproximadamente 19 quilômetros de suas casas.
Os resultados chamaram atenção.
Enquanto os pombos do grupo controle retornaram normalmente em cerca de 70 minutos, os animais que tiveram os macrófagos eliminados ficaram completamente desorientados quando o céu estava encoberto.
Por outro lado, quando o Sol apareceu, esses mesmos pombos conseguiram encontrar o caminho normalmente.
Isso sugere que a possível bússola interna atua principalmente quando as referências visuais desaparecem.

Os pombos não são os únicos
A navegação baseada no campo magnético da Terra não é exclusividade dos pombos.
Diversos animais parecem utilizar sistemas semelhantes.
Tartarugas marinhas
As tartarugas-verdes (Chelonia mydas) conseguem atravessar oceanos inteiros e retornar às praias onde nasceram décadas antes.
Baleias
Diversas espécies de baleias realizam migrações de milhares de quilômetros entre áreas de alimentação e reprodução.
Tubarões
Alguns tubarões, incluindo o tubarão-branco (Carcharodon carcharias), possuem sensores extremamente sensíveis capazes de detectar campos elétricos e magnéticos.
Morcegos
Estudos indicam que algumas espécies de morcegos utilizam tanto a ecolocalização quanto informações magnéticas para orientação.
Salmões
Os salmões do gênero Oncorhynchus conseguem retornar ao rio exato onde nasceram após anos vivendo no oceano.
As aves campeãs de navegação
Entre todos os exemplos conhecidos, poucos impressionam tanto quanto a andorinha-do-ártico (Sterna paradisaea).
Essa ave realiza uma das maiores migrações do reino animal, percorrendo aproximadamente 70 mil quilômetros por ano entre o Ártico e a Antártica.
Ela consegue repetir essa viagem com incrível precisão durante toda a vida.
O que essa descoberta pode mudar?
Segundo o pesquisador Hendrik Poinar, estudos como esse ajudam a compreender como os animais interagem com o ambiente e respondem às mudanças do planeta.
Além disso, a descoberta pode abrir caminho para novas pesquisas envolvendo navegação, comportamento animal e até mesmo sistemas de orientação inspirados na natureza.
Os cientistas também pretendem investigar se mecanismos semelhantes existem em outras espécies migratórias.
Vale a pena olhar para os pombos com outros olhos
Durante muito tempo, os pombos foram vistos apenas como aves urbanas comuns. No entanto, pesquisas como essa mostram que esses animais escondem habilidades extraordinárias.
Se a hipótese da bússola interna for confirmada por novos estudos, estaremos diante de uma das descobertas mais fascinantes da biologia moderna. Afinal, compreender como os animais encontram o caminho sem mapas, placas ou satélites é também uma forma de entender melhor os segredos do próprio planeta.
Nota: Conteúdo produzido com base em estudo publicado na revista científica Science e em informações divulgadas pela Universidade de Bonn e pelo Instituto Max Planck de Comportamento Animal.
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