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A diversidade da fauna do Rio está ameaçada

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Jabutis-tinga são soltos no Parque Nacional da Tijuca, com a missão de ajudar a restaurar as interações ecológicas perdidas na Mata Atlântica. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Ainda com remanescentes da Mata Atlântica preservados, o Rio de Janeiro abriga uma rica diversidade da fauna em seu território. Mas a degradação de áreas verdes, manguezais, restingas e lagoas, e a intensa ocupação humana são as maiores ameaças às espécies endêmicas e ao equilíbrio desses ambientes.

Segundo dados da “Lista Oficial da Fauna Ameaçada do Estado do Rio de Janeiro”, publicada no Diário Oficial do Estado, 257 espécies correm risco de sumir da região fluminense. Desse total: 43 são invertebrados terrestres, dentre estes destacam-se espécies de borboletas, mariposas e libélulas; 28 espécies de invertebrados aquáticos, como camarões, caranguejos e moluscos; 48 espécies de peixes, sendo 39 de água doce e 9 de água salgada; quatro espécies de sapos e pererecas; nove espécies de répteis, sendo um lagarto, duas cobras, um jacaré e cinco tartarugas; 82 espécies de aves e 43 espécies de mamíferos.

Um dos organizadores do recém-lançado livro “Imaginamundos: Interfaces Entre Educação Ambiental e Imagens” (Editora NUPEM/UFRJ), Celso Sánchez, que é biólogo e professor da UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), destaca o desmatamento como a maior ameaça às espécies endêmicas e ao equilíbrio do ambiente no Rio de Janeiro. “O desmatamento causado pela ocupação desordenada do solo, pelo avanço do agronegócio e pela poluição. No caso do Estado do Rio, a poluição industrial em particular”, diz.

“Mas ainda temos lugares onde se pratica a caça ilegal. Ainda existe um forte tráfico de animais silvestres e o pior de tudo é que os órgãos ambientais vêm sofrendo com retrocessos na política recente, com falta de verba e a diminuição da fiscalização, junto com uma interferência na atuação dos agentes públicos que vêm impedindo que os órgãos ambientais façam seu trabalho de forma plena”, observa.

Espécies ainda desconhecidas pela população

Muitas das espécies que correm o risco de extinção sequer são conhecidas pela grande parte da população. É o caso, por exemplo, do cágado-do-paraíba (Mesoclemmys hogei), quelônio de cor intensa encontrado em regiões baixas da bacia do Rio Paraíba do Sul. Assim como sagui-da-serra-escuro (Calithrix aurita), primata que vive apenas em área restrita do Sudeste.

“Nós temos espécies muito ameaçadas que hoje ainda podem ser encontradas em trechos de restinga, como o lagarto-branco-da-areia (Liolaemus lutzae); o peixe das nuvens, como os encontrados na Floresta do Camboatá (no bairro de Deodoro, na zona oeste), e a borboleta-da-praia (Paridis ascanius). Há ainda espécies da flora, como orquídeas endêmicas no Parque Nacional da Tijuca e, recentemente, até uma nova espécie de louva-a-deus foi encontrada lá”, comenta Celso Sánchez.

Para o biólogo, há espécies novas ainda para serem descritas e conhecidas pela ciência e pela humanidade nos territórios em que restam florestas no Estado do Rio. “É o caso da Floresta da Tijuca, do Parque Estadual dos Três Picos e do maciço do Gericinó e Serra do Mendanha. Ha também espécies que estão ameaçadas de extinção em outras localidades e que também ocorrem no Rio, como o jacaré-de-papo-amarelo, peixes anuais e uma série de outros animais e plantas”, complementa.

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Espécies endêmicas correm risco de sumir da região fluminense

Na opinião do biólogo, para proteger esse bioma é preciso uma política pública levada com seriedade. “É preciso entender que a defesa do meio ambiente é uma tarefa do Estado e não um simples projeto de governo que muda de quatro em quatro anos. A proteção do meio ambiente é algo para ser pensado como um patrimônio a ser deixado para gerações futuras, como uma possibilidade de demonstrar que a nossa geração tratou com respeito a nossa mãe comum, a natureza. É muito importante levar a sério as políticas de proteção ambiental, as legislações conquistadas com muita luta e muito debate ao longo de pelo menos 60 anos de debates ambientais no Brasil e no mundo”, diz.

Biólogo Célso Sánchez, professor da UniRio: “A proteção do meio ambiente é algo para ser pensado como um patrimônio a ser deixado para gerações futuras.” Foto: Divulgação

Educação para transformar

Para Celso Sánchez, o Brasil já foi exemplo mundial de políticas de proteção do meio ambiente. Hoje, no entanto, é um exemplo mundial de distribuição de desmatamento, de descaso e desrespeito. “É absolutamente fundamental para proteger esse bioma que tenhamos essas ações de proteção levadas a sério e também pensar que este exemplo tem um caráter pedagógico. Portanto, a educação ambiental não se faz apenas com palavras. Se faz também com gestos, mostrando que o compromisso com a proteção do meio ambiente é algo realmente importante para essa geração e para as gerações futuras”, conclui.

Tráfico de animais é situação recorrente

Terceira maior atividade ilícita do mundo – depois do comércio de armas e de drogas -, o tráfico de animais silvestres é uma realidade cruel e que no Brasil retira ilegalmente da natureza cerca de 38 milhões de animais por ano e gira R$ 3 bilhões, de acordo com a Renctas (Rede Nacional de Combate ao Tráfico Animal).

No Estado do Rio, animais silvestres são facilmente encontrados sendo vendidos em feiras livres, como a de Acari, na zona norte, e também negociados por meio de redes sociais – atualmente, a Polícia Civil vem investigando essa modalidade do tráfico de animais silvestres no Estado. Esses animais vêm de outras regiões do país, transportados em péssimas condições e, na maioria das vezes, muitos morrem no caminho.

O comércio ilegal também representa outra grande ameaça à fauna fluminense, por ser responsável pela introdução de espécies-exóticas invasoras nos biomas.

Tucano apreendido em operação contra o tráfico de animais silvestres no Rio de Janeiro. Foto: Polícia Federal RJ/Divulgação

“O tráfico de animais silvestres é muito cruel não apenas por tirar os animais da natureza, mas pelo fato de muitas pessoas que os compram ilegalmente e depois, para se livrarem deles, os abandonam –  ou soltam na natureza sem qualquer critério. Algumas dessas espécies acabam por conseguir sobreviver e se reproduzir”, destaca o biólogo Celso Sánchez.

Ele cita, como exemplo de espécie invasora, o mico-estrela. “É um primata hoje visto em praticamente toda a cidade e que foi introduzido da região Nordeste para o Sudeste. Aqui, foi competindo com outras espécies de micos e acabou prevalecendo. A sua presença também está associada a diminuição de pássaros na cidade, uma vez que ele se alimenta dos ovos nos ninhos. É o caso, também, do peixe-leão (Pterois volitans), a mais voraz das espécies invasoras e atualmente um problema, porque ele se adaptou muito bem e acaba por impactar ecossistemas marinhos. Era um peixe que foi trazido (da região do Indo-Pacífico) para ser criado como um peixe ornamental de aquário”, destaca o biólogo Celso Sánchez.

Confira abaixo as dez espécies endêmicas mais em risco no território fluminense e que estão listadas na publicação “Abrace Essas Dez! – Defenda Todas as Espécies Ameaçadas de Extinção”. O projeto foi desenvolvido pela Secretaria de Estado do Ambiente (SEA) em parceria com o Instituto Biomas e o Serviço de Educação Ambiental do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBJR):

Jacutinga (Aburria jacutinga)
Ave de grande porte que vive, preferencialmente, em copas de árvores. Pode ser vista no município de Itatiaia e há registros em alguns municípios como São Fidélis, Cantagalo, Teresópolis e em algumas unidades de conservação, como o Parque Nacional da Serra da Bocaina, a Reserva Biológica do Tinguá e o Parque Estadual do Desengano.

Foto: Fabio Colombini
Cágado-do-paraíba (Mesoclemmys hoguei)
Esse quelônio é encontrado em regiões baixas da bacia do Rio Paraíba do Sul. É uma espécie sensível e vem sofrendo com a pesca.

Foto: Fernando Matias
Mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia)
Esse pequeno primata vive em grupos familiares de dois até 14 indivíduos e costuma dormir em ocos de árvores. Hoje, as populações estão fragmentadas e dispersas por oito municípios da Região dos Lagos. Os principais refúgios estão nas reservas de Poço das Antas e União, respectivamente abrangidas pelos municípios de Silva Jardim e Casimiro de Abreu. Essas áreas representam apenas 2% do habitat original da espécie na Mata Atlântica.

Foto: Gustavo Pedro
Lagarto-branco-da-areia (Liolaemus lutzae)
Réptil de coloração clara que possibilita a camuflagem na areia. É uma espécie endêmica do Estadop do Rio, vivendo apenas nos habitats de praias de restinga, como Grumari e Guaratiba, no município do Rio, e na região de Massambaba, na Região dos Lagos.
Foto: Lena Trindade
Surubim-do-paraíba (Steindachneridion parahybae)
Bagre de grande porte, é considerado uma das poucas espécies nobres da bacia do Rio Paraíba do Sul. Atinge cerca de 60 cm de comprimento e costuma se alimentar de peixes e crustáceos.
Foto: José Caldas
Formigueiro-do-litoral (Formicivora littoralis)
Conhecido popularmente como concon ou coconha, é a única espécie de ave endêmica de restinga em todo o litoral do Brasil. Por habitar área de distribuição restrita, essa espécie pode ser encontrada ao lomgo da Restinga de Massambaia, na Região dos Lagos, especialmente na praia do Peró, em Cabo Frio.
Foto: Luiz Claudio Marigo
Muriqui (Brachyteles arachnoides)
O muriqui-do-sul ou mono carvoeiro, é o maior primata das Américas, podendo atingir 15 kg. É exclusivamente brasileiro e seu habitat é a Mata Atlântica. No Estado do Rio, a sua população encontra-se praticamente confinada em unidades de conservação federais e estaduais. Na região sul-fluminense na Área de Proteção Ambiental do Cairuçu e no Parque Nacional da Serra da Bocaina. Na região do Médio Paraíba do Sul, no Parque Nacional de Itatiaia. Já na Região Serrana, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Parque Estadual dos Três Picos, no Parque Estadual do Cunhambebe e no Parque Estadual do Desengano e, na Baixada Fluminense, somente na Reserva Biológica do Tinguá.

Foto: José Caldas
Boto-cinza (Sotalia guianensis)
É uma espécie costeira que ocorre ao longo de todo o litoral do Estado do Rio. Pode ser observado todos os dias nas baías de Guanabara, Sepetiba e Ilha Grande. São ótimos saltadores, podendo atingir mais de dois metros acima da água. Na Baía de Guanabara, os botos-cinza estão muito ameaçados, e sua população não passa de 40 indivíduos.

Foto: Fabio Colombini
Tatu-canastra (Priodontes maximus)
A espécie é típica do cerrado, mas também habita a Mata Atlântica. É o maior e mais raro tatu do planeta. É econtrado junto às divisas do Estado do Rio com o Espírito Santo e Minas Gerais. São observados próximo ao Parque Nacional do Caparaó, na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, região que abriga áreas de transição do cerrado para a Mata Atlântica.
Foto: Luiz Claudio Marigo
Preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus)
É a maior e mais pesada das preguiças do gênero, podendo atingir 10 kg de massa corpórea. Habitam florestas de baixada, como a Floresta da Tijuca, e também de altitude, de clima mais ameno, como em Friburgo, Cachoeiras de Macacu e Teresópolis.
Foto: Luiz Claudio Marigo