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A ‘Trupe do Mangue’ une arte e educação

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Vitor Peres criou o projeto Trupe do Mangue há três anos. Foto: Junior Rezende/Divulgação

Ator, professor e diretor de teatro, Vitor Peres, 33 anos, há três anos criou o projeto “Trupe do Mangue”, junto com educadores e artistas. Trata-se de um projeto de arte e educação situado na Ilha da Gigoia, na zona oeste do Rio de Janeiro.

A ilha, que é um recanto de sossego em plena Barra da Tijuca e é desconhecido para muitos cariocas, faz parte do arquipélago de 10 ilhotas que se estendem entre a Lagoa de Marapendi, a Lagoa da Tijuca e a Lagoa de Jacarepaguá. O projeto Trupe do Mangue movimenta a região através de atividades culturais e de preocupação com o meio ambiente.

Em entrevista ao portal “Meus Bichos“, Vitor conta como surgiu a Trupe do Mangue. Ele também revela como o projeto une moradores e suas histórias de vida, alunos e plateia, gerando acesso à arte e à educação, além de despertar a conscientização ambiental.

Como teve início a Trupe do Mangue e quem faz parte do projeto?

“O projeto surgiu pela necessidade de gerar acesso à arte e à educação. E também por perceber que a Ilha da Gigoia é um pequeno lugar, que é o espelho dos grandes lugares. Aqui a gente vê desigualdade social, a destruição da Lagoa da Tijuca que luta para sobreviver, a especulação imobiliária e por aí vai. 

Existem também características positivas como a presença de alguns dos primeiros moradores, muitos artistas reunidos, moradores que nos ajudam a contar a história viva, o que nos possibilita fazer um paralelo e criar uma conscientização. Hoje, além de mim, temos várias pessoas que contribuem com o projeto. Fernando Mendes e Tathiana Pomo, donos do Bar Teatro Caiçara, onde o projeto nasceu e acontecem as aulas. Compositores como Mário Hermeto, Jana Figarella, Josi Araújo e Alan Moura. A professora de dança Roberta Simões. O cinegrafista Luan Baptista. Artistas como o ator Antônio Pedro Borges e o cineasta Neville D’Almeida.  E mais recentemente, contamos com o apoio da UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), através do professor e biólogo Celso Sanchez e do Grupo de Estudos em Educação Ambiental desde el Sur (GEASur).”

Quais as questões que o projeto aborda e que consciência a Trupe do Mangue quer ajudar a disseminar?

“O objetivo do projeto é continuar as oficinas regulares de teatro, canto e dança. Continuar movimentando a Ilha da Gigoia através de atividades culturais e de preocupação com o meio ambiente. Em nossas peças e músicas já tratamos disso, mas queremos cada vez mais criar condições para que o meio ambiente tenha mais importância em nosso trabalho. Antes da pandemia, trabalhamos com reciclagem para construir figurinos e cenários. Agora já pensamos em uma ação junto com o biólogo Celso Sanchez de construir objetos de arte a partir da coleta de lixo da Lagoa da Tijuca. Nosso objetivo é que cada participante do projeto seja o personagem principal de sua vida, crie uma responsabilidade sobre o lugar que vive e age e, assim sendo, isso chegará na plateia, que é convidada a se levantar do lugar passivo que assiste – o que acontece no palco e na vida.”

Trupe reunida, com alunos e artistas colaboradores do projeto.
Foto: Mariana Pereira/Divulgação

E é muito importante a participação dos moradores da região nisso tudo, certo? De que forma eles são inseridos?

“O nosso foco sempre foi os moradores da Ilha da Gigoia. Mas, como vivemos em um país de muitos privilégios e pouco acesso, já tivemos alunos de [das comunidades] Rio das Pedras, Tijuquinha, Muzema, Morro do Banco, Rocinha, Vargem Grande e Santa Marta, entre outros locais. Isso foi acontecendo pelo boca a boca. Mas, tem uma história do início [do projeto] que gosto de contar. Antes de começar a primeira aula, fui andando pela ilha chamando os moradores para participar e não havia muito interesse por parte deles. Então, comecei a comunicar que, depois das aulas, teria um cachorro-quente com refrigerante. Foi um alvoroço! Eu me lembro que um aluno muito carente tinha me dito que odiava teatro e apareceu lá para fazer a aula por causa do cachorro-quente. Depois, ele nem queria mais saber do cachorro-quente. A história de vida desse menino caiçara foi um dos temas centrais da nossa primeira peça, ‘Gigoia Conta Gigoia’.”

O projeto conta com algum tipo de apoio ou financiamento?

“O projeto só existe em função do apoio de Fernando Mendes  e Tathiana Pomo, donos do Bar Teatro Caiçara, que doam o espaço para todas as aulas e apresentações desde o início. Porém, a Trupe está passando por muita dificuldade nesse período de pandemia. E quase todas as aulas foram paralisadas, por enquanto. Mas temos um compromisso com a continuidade. O projeto sempre sobreviveu  por agregar muitos artistas e professores, que faziam shows para arrecadar fundos, e das peças que apresentávamos. Antes já era uma matemática, que era difícil de fechar financeiramente sem minha ajuda pessoal, para pagar as contas. Agora, com a pandemia, os profissionais que ajudavam estão há um ano sem fazer shows ou impossibilitados de dar parte das aulas que davam. Enfim, é um momento bem difícil em que estamos estudando formas de sobreviver. Adaptamos essa necessidade criando um curso de teatro infantil, no qual os pais que podem custear pagam o curso. Mesmo assim, temos alunos bolsistas, para não deixar de levar o teatro pra quem precisa ter  esse acesso de graça. Foi uma das formas que encontramos de continuar, uma vez que as apresentações que bancavam o projeto estão impossibilitadas.”

O poeta Mano Melo se apresentando em uma das peças do projeto.
Foto: Zzn Peres

Quais são as grandes alegrias que a Trupe do Mangue te proporciona e também os desafios?

“Os moradores, as crianças, os alunos, a plateia, a consciência e o respeito que essa turma tem pela Trupe do Mangue são as grandes alegrias. As ações do projeto me fazem acreditar que podemos ser melhores. Podemos agir e impactar esse lugar com alguma transformação. Mas precisamos de mais. Precisamos de apoio para dar uma dignidade para os profissionais que se doam na multiplicação do conhecimento e já estão há três anos fazendo isso de graça. Não é fácil motivar uma turma tão grande. A alegria é vê-los lá se doando sem ganhar nada em troca mesmo com as dificuldades. É andar pelas ruas e os moradores agradecerem por verem suas histórias e o cuidado com esse lugar posto no palco. E as críticas ganhando discussões na boca do povo. É sonhar que um dia faremos alguma diferença, que sem apoio público ou privado podemos isso. Imagina com apoio e estruturação?”

Como educador, acredito na conscientização principalmente dessa nova geração. Essa é a transformação que mais me faz ter esperança para continuar.”

Vitor Peres, ator, professor, diretor e criador da Trupe do Mangue

Há quanto tempo você trabalha com arte e como aconteceu seu envolvimento na causa ambiental?

“A arte está na minha vida há 20 anos. Fui aluno do [grupo de teatro] Nós do Morro ao mesmo tempo que cursava Teatro na UniRio. Onde depois de cursar um bacharelado fui estudar licenciatura em Teatro com professores poderosíssimos, que têm uma preocupação real com a educação e a desigualdade de possibilidades. Lá fiz a conexão de que o estudo devia estar onde era mais preciso e através do projeto ‘Teatro em Comunidades’, criado pela professora Marina Henriques, pude conhecer o teatro aplicado, com uma função de fato nas favelas. Marina me ensinou sobre a importância do lugar como palco e personagem principal das histórias.

Aquilo me acendeu uma chama muito grande. Fui trabalhar em vários projetos periféricos e analisando sempre pontos fortes e fracos. E quando voltei a morar na Ilha da Gigoia, em 2017, lugar onde já havia morado em 2010, percebi que era aqui o lugar escolhido para montar meu projeto social e grupo de teatro. O interesse pela causa ambiental veio forte quando passamos a estudar essa ilha. Fomos percebendo, pelo relato de alguns moradores, a destruição da lagoa, a extinção de algumas espécies e que o problema da poluição era muito maior do que podíamos imaginar no início. Que essa região se tornou uma zona de sacrifício ambiental, mesmo com toda a riqueza e a biodiversidade, ela está à beira do colapso. Percebi que não falar disso é contribuir com o descaso com o meio ambiente. É normalizar algo que é um crime. E se nós imaginamos que essa conscientização é possível, vamos lutar por ela com as ferramentas que temos.”

Fernando Mendes e Tathiana Pomo são uns dos principais apoiadores do projeto e proprietários do Teatro Bar Caiçara, espaço onde acontecem as aulas e as apresentações. Foto: Mariana Pereira

Em que momento você notou que a arte é um modo eficaz de despertar a consciência das pessoas nas questões ambientais?

“Foi, mais precisamente, quando apresentamos nossa primeira peça com os moradores, alunos e artistas em cena contando sua própria história, ao mesmo tempo que colocavam este lugar como protagonista. As questões ambientais gritaram e comoveram a plateia, que era em sua maioria de moradores da ilha. Foi ali que percebi de fato a potência do Teatro Popular. Em um momento, eram as crianças em cena reclamando do parquinho em meio ao esgoto. Em outro, era a história de Dona Rosa, uma das primeiras moradoras daqui, que falava da riqueza de peixes, caranguejos e camarões e que hoje chora quando vê essa lagoa [a Lagoa da Tijuca, que faz parte de um arquipélago de dez ilhotas na região da Barra da Tijuca] e a altura dos prédios daqui. Ali vi que o grupo tinha uma função e uma responsabilidade que surgiu a partir dos próprios moradores.”

O que você acha da postura do Brasil em relação às questões ambientais?

“Descaso total. Pouco é falado e nada é feito. Muitas pessoas que lutaram pelo meio ambiente neste país foram mortas e viraram estatística. Neste país, até quem luta pelos direitos humanos corre perigo.”

E como você avalia a discussão do tema ambiental pela sociedade?

“Não vejo uma mudança significativa na conscientização ambiental. Parte da sociedade tem essa preocupação. Falo da minha ‘ilha aldeia’ para falar do mundo. Existem pessoas que lutam pela causa e que agem. Mas o que vemos do poder público com ações significativas? Como educador, acredito na conscientização principalmente dessa nova geração. Essa é a transformação que mais me faz ter esperança para continuar.”

Um recado final para os leitores

“Se acreditamos que uma mudança é possível, não basta assistir passivo para ver se a mudança acontece. Temos que arregaçar as mangas e ir à luta. Se alguém que estiver lendo essa mensagem e a história do projeto fizer sentido para você, estamos abertos e precisando de ajuda para continuar. O sonho só se torna realidade se ele é construído coletivamente.”

Confira abaixo a galeria de fotos. Clique na imagem para ampliá-la:


*Fique por dentro das ações e da programação da Trupe do Mangue. Siga o projeto no Instagram: @trupedomangue