
Você já reparou como os cães possuem cérebros significativamente menores do que os de seus ancestrais, os lobos? Um estudo recente, liderado por pesquisadores do Museu Nacional de História Natural da França e publicado na Royal Society Open Science, mapeou a linha do tempo dessa redução cerebral, que coincide com uma fase decisiva da evolução humana: a transição para sociedades agrícolas.
A pesquisa: crânios como cápsulas do tempo
Como o tecido cerebral não se fossiliza, os cientistas utilizaram tomografias computadorizadas (CT scans) para medir o volume da caixa craniana de 22 lobos e cães pré-históricos encontrados na Bélgica e na França. Para garantir precisão, os dados foram comparados com 163 espécimes de cães e lobos modernos.
Os pesquisadores calcularam a proporção entre a cavidade cerebral e o comprimento do crânio. Esse método permite comparar o tamanho do cérebro em relação ao tamanho do corpo, evitando distorções entre cães de pequeno e grande porte.
O impacto da agricultura
Os resultados mostraram algo fascinante:
- Protocães (35.000 a 15.000 anos atrás): Ainda apresentavam cérebros com tamanhos relativos equivalentes aos dos lobos do Pleistoceno.
- Período Neolítico (5.000 anos atrás): Nesse ponto, a mudança já estava consolidada. Cães daquela época apresentavam cérebros com cerca de metade do tamanho dos lobos contemporâneos, comparáveis aos de raças modernas como pugs e chihuahuas.
Por que os humanos selecionaram cérebros menores?
A hipótese dos autores é que a redução cerebral é um reflexo da seleção comportamental humana. À medida que as sociedades se tornaram sedentárias e agrícolas, os humanos passaram a priorizar cães que atendessem a funções específicas: proteção de assentamentos, caça e até mesmo como fonte de alimento.
Os pesquisadores especulam que a redução cerebral pode ter causado uma reestruturação nas funções cognitivas:
- Menos córtex: A área ligada à percepção complexa e pensamento superior pode ter sido reduzida.
- Mais subcórtex: A região responsável por funções básicas, como movimento, homeostase e emoção, pode ter sido priorizada.
Essa alteração poderia ter tornado os cães mais alertas e ansiosos, funcionando como “sistemas de alarme” eficientes para os primeiros povoados. Embora essa característica fosse útil para a segurança, ela provavelmente tornou esses animais mais difíceis de treinar em comparação com os ancestrais mais “racionais”.
O que vem a seguir?
Embora o tamanho cerebral não seja o único indicador de inteligência, os cientistas ressaltam que mais pesquisas com cães do Mesolítico e Neolítico em outras regiões da Europa são necessárias para confirmar se esse padrão ocorreu em larga escala. O estudo é um passo importante para entender como a nossa transição para a agricultura moldou não apenas a nossa história, mas a própria biologia dos nossos melhores amigos.
Fonte:
- Cucchi, T., et al. (2024). The timing and nature of brain size reduction in dogs throughout the Neolithic. Royal Society Open Science.
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