
Os incêndios florestais, um fenômeno cada vez mais frequente e intenso em um cenário de mudanças climáticas, pintam paisagens de verde para cinza e, muitas vezes, deixam um rastro de devastação que choca. No entanto, por trás da aparente destruição, existe uma força da natureza que surpreende: a resiliência da fauna brasileira. Enquanto muitos veem apenas perdas, a ciência observa estratégias de sobrevivência e recuperação que revelam uma complexa interação entre os animais e o fogo.
Entender como os ecossistemas se adaptam e como os animais persistem e até se beneficiam de certas fases do fogo é crucial. Essa perspectiva nos ajuda a repensar a gestão ambiental e a valorizar a importância do manejo adequado do fogo, reconhecendo que nem todo incêndio é puramente destrutivo, mas sim uma força que, em doses naturais, pode moldar a paisagem e promover a biodiversidade. Contudo, a intensidade e frequência dos eventos atuais exigem uma atenção redobrada e ações humanas mais eficazes.
Estratégias de sobrevivência da fauna em incêndios
Quando o fogo avança, a primeira resposta da maioria dos animais é a fuga. Aves e mamíferos de grande porte, como a onça-pintada (Panthera onca) ou a anta (Tapirus terrestris), tentam escapar rapidamente. No entanto, nem todos conseguem, e muitos perecem.
Refúgios naturais: a resiliência de animais subterrâneos
Para espécies menores e mais lentas, a solução é buscar refúgio. Animais com hábitos fossoriais (que vivem em tocas e galerias subterrâneas), como tatus (Dasypus novemcinctus ou Euphractus sexcinctus) e algumas espécies de serpentes e roedores, têm uma vantagem natural. Suas tocas oferecem proteção contra o calor e as chamas diretas. No Pantanal, por exemplo, a capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), que passa parte do tempo na água, e o jacaré (Caiman crocodilus), que se enterra na lama ou busca corpos d’água, demonstram essa capacidade.
Alimentação pós-fogo: a recomposição para os animais
Curiosamente, após a passagem do fogo, a paisagem queimada pode oferecer novas oportunidades. A vegetação que brota rapidamente das cinzas é rica em nutrientes, atraindo herbívoros. Predadores, por sua vez, podem se beneficiar da maior visibilidade e da concentração de presas menores que sobrevivem ou são atraídas para a área. Observa-se que aves de rapina podem caçar animais que fogem do fogo, e algumas espécies de aves, como o pica-pau-do-campo (Colaptes campestris), prosperam em áreas pós-incêndio, utilizando árvores danificadas para construir ninhos ou encontrar insetos. Essa capacidade de adaptação demonstra a resiliência intrínseca dos animais face aos incêndios.
O papel do fogo na natureza e a ação humana contra incêndios
É importante notar que, em alguns biomas, como o Cerrado brasileiro, o fogo é um elemento natural do ecossistema. Certas espécies de plantas e animais evoluíram com o fogo e dependem dele para se reproduzir ou para manter o equilíbrio da paisagem. As gramíneas do Cerrado, por exemplo, rebrotam rapidamente após o fogo, e algumas sementes precisam do calor para germinar.
No entanto, o problema atual não é a existência do fogo, mas a sua frequência e intensidade sem precedentes, impulsionadas pelas mudanças climáticas e pela ação humana. Estudos e relatórios recentes de organizações internacionais como a ONU, por exemplo, destacam que mais de 80% dos incêndios florestais são causados por atividades humanas, e a crise climática intensifica a seca e o calor, criando condições perfeitas para incêndios gigantescos e de difícil controle. No Pantanal, estudos (como os da Embrapa) mostraram que mais de 25% do bioma foi afetado por grandes incêndios em 2020, com estimativas de impacto ainda maior em anos recentes devido à seca severa. A capacidade de resiliência da fauna é testada ao limite diante de eventos tão extremos.
Ações humanas e a mitigação dos impactos dos incêndios
Nesse cenário, a intervenção humana se torna crucial. Além do resgate e reabilitação de animais feridos, que mobiliza diversas ONGs e instituições de pesquisa (como a Universidade de São Paulo – USP, com seus grupos de pesquisa em fauna silvestre e meio ambiente), a prevenção e o manejo do fogo são essenciais. Isso inclui:
- Educação ambiental: Conscientizar a população sobre os riscos e causas dos incêndios.
- Manejo integrado do fogo: Utilizar o fogo de forma controlada para limpar material combustível e criar barreiras naturais.
- Políticas públicas: Fiscalização rigorosa contra o desmatamento ilegal e queimadas criminosas.
- Restauração de habitats: Recuperar áreas degradadas para fortalecer a resiliência dos ecossistemas.
A capacidade de superação da vida selvagem diante dos incêndios é inspiradora, mas não infinita. É nosso papel garantir que a balança não penda para o lado da destruição irreversível, protegendo os biomas e permitindo que a natureza continue seu ciclo de vida e renovação.
Nota:
¹ Embrapa. (Dados e estudos sobre os impactos dos incêndios no Pantanal, com foco em eventos recentes).
² Universidade de São Paulo (USP). (Trabalhos de pesquisa e projetos de extensão desenvolvidos por grupos de pesquisa da USP em fauna silvestre, meio ambiente e reabilitação de animais).
Por MB.
Leia mais: Aumento do nível do mar: ameaça real aos ecossistemas costeiros