
A natureza nunca deixa de nos surpreender com sua complexidade organizacional. Recentemente, estudos de ecologia comportamental e biologia evolutiva revelaram que algumas espécies de formigas desenvolveram um sistema de saúde que desafia nossa compreensão sobre a inteligência dos insetos: elas se automedicam de forma coletiva para garantir a sobrevivência da espécie.
Certamente, esse comportamento não é aleatório. Pesquisadores da Universidade de Lausanne, na Suíça, e da Universidade de Helsinque, na Finlândia, observaram que a formiga-da-madeira (Formica polyctena) e a Formica paralugubris coletam ativamente resinas de coníferas. Essas substâncias possuem propriedades fungicidas e antibacterianas potentes que funcionam como um verdadeiro escudo químico.
A ciência por trás da farmácia natural
O processo de “cura” é sofisticado. As formigas não apenas trazem a resina para o ninho, mas a manipulam. Quando o material é misturado ao ácido fórmico — secretado pelas próprias formigas para defesa — ele cria um “coquetel” antimicrobiano muito mais potente do que os componentes isolados.
Consequentemente, essa barreira química impede a proliferação de patógenos letais, como o fungo Metarhizium brunneum, que poderia dizimar uma colônia inteira em poucos dias. O uso dessas substâncias é uma forma de medicina profilática, ou seja, as formigas tratam o ambiente antes mesmo de ficarem doentes.
Imunidade social e inteligência coletiva
Além disso, essa prática é um exemplo brilhante do que os biólogos chamam de imunidade social. Em colônias de alta densidade populacional, o risco de epidemias é constante. Portanto, a inteligência coletiva permite que o grupo identifique ameaças invisíveis a olho nu.
“As formigas estão alterando quimicamente o microclima do ninho para torná-lo hostil aos germes”, explica o Dr. Michel Chapuisat, um dos principais nomes por trás da descoberta.
Outro dado que fascina a comunidade acadêmica é a capacidade de “dosar”. Em experimentos controlados, as colônias expostas a fungos aumentaram a coleta de resina de forma drástica em relação aos grupos saudáveis. Isso prova que existe um mecanismo de feedback sensorial que alerta as operárias sobre o nível de perigo.
O caso extremo das formigas Matabele
Para os entusiastas da biologia que buscam casos ainda mais exóticos, a espécie Megaponera analis (conhecida como formiga Matabele) oferece um espetáculo à parte. Pesquisadores da Universidade de Würzburg, na Alemanha, liderados pelo Dr. Erik Frank, descobriram que elas realizam verdadeiras “triagens médicas”.
Após combates contra cupins, as operárias examinam as companheiras feridas. Se a ferida está infectada, elas aplicam secreções antimicrobianas produzidas por suas glândulas metapleurais. Esse “serviço de primeiros socorros” reduz a mortalidade das formigas feridas em até 90%, algo inédito no reino dos invertebrados.
Por que isso importa para a ecologia?
Entender como as formigas se automedicam nos ajuda a compreender a evolução da própria medicina e da vida em sociedade. Esses pequenos seres provam que a cooperação e a higiene compartilhada são as ferramentas mais poderosas contra a extinção. Além disso, o estudo dessas resinas pode abrir portas para a descoberta de novos compostos antibióticos para uso humano no futuro.
Por MB.
Referências bibliográficas
- Chapuisat, M., et al. “Wood ants use resin to protect themselves against pathogens”. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. Universidade de Lausanne, Suíça.
- Frank, E. T., et al. “Wound care and selective help in Matabele ants”. Science Advances. Universidade de Würzburg, Alemanha.
- Helsinki University. “Social immunity in ants: how colonies fight diseases”. Journal of Evolutionary Biology. Finlândia.
- The Earth Species Project. “Decoding non-human communication through artificial intelligence and bioacoustics” (2024).
.
Leia mais: Descoberta de espécies em abismos marinhos: os mistérios das profundezas
Leia mais: Projeto para ressuscitar o Tigre da Tasmânia: ciência ou erro ético?
.
