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GPS natural: neurocientistas desvendam o segredo da orientação magnética em animais

Animais como as aves migratórias têm a capacidade de detectar e utilizar o campo magnético terrestre.
Foto: Canva.com

A natureza está repleta de enigmas, e um dos mais curiosos é a forma como inúmeros animais — incluindo majestosas tartarugas-marinhas, aves migratórias e morcegos — conseguem voar ou nadar por longas rotas sem se perderem. A resposta reside no que é apelidado de “sexto sentido”: a magnetorrecepção, a capacidade de detectar e utilizar o campo magnético terrestre como um GPS interno.

Mas, afinal, como é que o fazem? Que órgão funciona como bússola e que circuito cerebral processa esta informação invisível?

O imã do planeta: a magnetosfera

O campo magnético terrestre tem a sua origem no núcleo de metal líquido no centro do nosso planeta, funcionando como um enorme ímã com polos. Esta camada de forças, conhecida como magnetosfera, não só protege a Terra da radiação e das partículas carregadas pelos ventos solares, como também serve de base para a navegação. É o mesmo mecanismo que permite o funcionamento das bússolas humanas, mas, para os animais, ela é inata.

A existência deste sentido magnético foi inicialmente defendida pelo naturalista francês Camille Viguier em 1882 e, embora tenha se provado verdadeira, o seu funcionamento permaneceu uma incógnita por mais de um século.

O resgate de uma teoria antiga e a descoberta da LMU

Camille Viguier propôs que este sentido poderia operar no ouvido interno, gerando pequenos estímulos elétricos. Embora a ideia tenha sido esquecida, uma equipe de neurocientistas da Ludwig Maximilian University of Munich (LMU), liderada pelo professor David Keays, decidiu colocar a teoria à prova, escolhendo os pombos-correio — mestres na arte da orientação — como objeto de estudo.

Os resultados, publicados na revista científica Science, foram revolucionários. Recorrendo a técnicas inovadoras de microscopia, os pesquisadores identificaram circuitos cerebrais especializados que processam a informação magnética, localizados numa região chamada núcleo vestibular, diretamente ligada ao ouvido interno das aves.

Sensores de tubarão e indução eletromagnética

A análise genética do ouvido interno dos pombos revelou um dado surpreendente: a existência de células com sensores elétricos altamente sensíveis. O mais espantoso é que estes são os mesmos sensores que os tubarões utilizam para detectar suas presas através dos campos elétricos gerados pela atividade muscular.

A equipe da LMU explicou que estas células estão perfeitamente equipadas para detectar campos magnéticos através da indução eletromagnética. Os pombos encontram o caminho para casa usando o mesmo princípio físico que permite carregar baterias de telefones sem fio: o impulso magnético é convertido num sinal elétrico que “carrega” o seu GPS natural.

Um mosaico de bússolas: o ‘dark compass’ e o sentido visual

No entanto, a ciência sabe que esta não é a única estratégia na natureza. A descoberta da LMU aponta para um “dark compass” (bússola escura) no ouvido interno — um mecanismo que funciona independentemente da luz e que se baseia em sensores químicos e elétricos.

Em contraste, outros estudos sugerem a existência de uma bússola dependente da luz, que opera no sistema visual das aves através de proteínas sensíveis à luz, como os criptocromos. Neste mecanismo, o campo magnético afeta a forma como a luz é processada no olho, criando um tipo de “mapa visual” da direção magnética.

O professor David Keays conclui que a magnetorrecepção provavelmente evoluiu de forma convergente em diferentes organismos — ou seja, animais sem um parentesco próximo desenvolveram soluções semelhantes para enfrentar o mesmo desafio de navegação. Embora a descoberta da bússola interna no ouvido dos pombos seja um marco, resta ainda um vasto território a ser explorado para desvendar todos os segredos do sentido magnético da vida selvagem.

Avanço na neurociência e na zoologia

A identificação do núcleo vestibular e das células eletrossensíveis no ouvido dos pombos representa um avanço crucial na neurociência e na zoologia. Ao provar a antiga teoria de Camille Viguier e estabelecer o princípio da indução eletromagnética, os cientistas da LMU desvendaram uma parte significativa do ‘dark compass’ que guia a vida selvagem. Essa descoberta não apenas preenche uma lacuna sobre a navegação de animais migratórios, mas também reforça a importância de reavaliar mecanismos biológicos simples. A complexidade do sentido magnético — com múltiplas estratégias, como a bússola escura e a visual — apenas confirma que a natureza ainda guarda seus maiores segredos para as próximas gerações de pesquisadores.

Por MB.

Fontes: Artigo baseado no estudo “Título da Pesquisa”, realizado por Grégory Nordmann, Spencer Balay e outros, no laboratório de David Keays na Ludwig Maximilian University of Munich (LMU) e publicado na revista Science.

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