
Quem caminha pelas regiões de mata no Brasil, especialmente no Norte e no Nordeste, pode ser surpreendido por um assobio estridente, agudo e persistente. O som é tão marcante que parece vir de todos os lados e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Durante séculos, o mistério desse canto na escuridão alimentou a imaginação popular e deu origem a um dos mitos mais fascinantes da nossa cultura: a Matinta-Pereira.
Por trás das histórias assustadoras contadas ao redor da fogueira, existe uma criatura real e fascinante da nossa fauna. A espécie Tapera naevia, um pássaro discreto e de hábitos solitários, é a verdadeira responsável pelo som que arrepiou gerações. Compreender a ligação entre a zoologia e a tradição oral é uma forma incrível de valorizar a biodiversidade e a identidade brasileira.
Entenda rápido
- A Matinta-Pereira faz parte do rico folclore brasileiro, especialmente na Amazônia.
- A ave real associada a essa lenda é a Tapera naevia, pertencente à família dos cuculídeos.
- O assobio forte e territorial da espécie inspirou diversas histórias populares.
- As versões da lenda mudam bastante conforme a região do país.
- Cientificamente, trata-se de uma ave mestre no disfarce e com hábitos reprodutivos curiosos.
O que é a Matinta-Pereira?
Para entender esse universo, é preciso separar o mito da biologia. A Matinta-Pereira se divide em duas figuras distintas no imaginário e na ciência:
- A personagem folclórica: uma bruxa ou entidade mística que vagueia pelas noites, assustando moradores com assobios agudos e exigindo oferendas para cessar a perturbação.
- A ave real: uma espécie silvestre da fauna brasileira, de plumagem discreta e canto marcante, que vive em áreas abertas e bordas de matas.
A Matinta-Pereira existe?
A resposta curta e direta é: a personagem do folclore não existe, mas a ave que inspirou a lenda, sim.
A entidade que se transforma em velhinha andarilha faz parte da rica tradição oral do nosso país. Já o ser vivo de penas, ossos e asas vive livre na natureza e cumpre um papel ecológico fundamental no controle de insetos e na teia alimentar.
Que ave é essa? Conheça a Tapera naevia
A ave associada à lenda pertence à família Cuculidae (a mesma do anú e do jacu-estalo) e atende pelo nome científico de Tapera naevia. Ela também recebe diversos nomes populares pelo Brasil, entre eles peito-ferido, saci, matintaperera, martim-pererê, crispim e seco-fico.
Com comprimento que varia entre 26 e 30 centímetros e peso em torno de 40 a 60 gramas, a Tapera naevia ostenta uma plumagem pardo-amarelada com manchas escuras nas asas, o que garante uma camuflagem perfeita entre os galhos. Um de seus traços mais marcantes é um pequeno topete avermelhado que ela ergue quando está atenta ou vocalizando.
A espécie ocorre por todo o Brasil e em outros países das Américas, do México à Argentina. Sua dieta é insetívora, alimentando-se principalmente de lagartas, gafanhotos e outros invertebrados.
Outro detalhe biológico curioso é que ela pratica o parasitismo de ninho. A fêmea não constrói a própria casa: ela põe seus ovos nos ninhos de outras aves, como o joão-teneném e o curutié, deixando a tarefa de chocar e alimentar os filhotes para os pais adotivos.
Por que ela assobia tanto?
O canto característico que tanto assusta as pessoas não tem nada de sobrenatural. Trata-se de uma estratégia de comunicação puramente biológica.
A Tapera naevia assobia com frequência para delimitar seu território e atrair parceiros no período reprodutivo. Como é uma ave tímida, que prefere ficar escondida na vegetação densa, a vocalização alta e projetada é a melhor ferramenta que ela possui para se fazer notar por outros indivíduos da mesma espécie a longas distâncias.
A lenda da velha que pede tabaco
Na tradição oral, principalmente na região Amazônica, conta-se que a Matinta-Pereira é uma velha bruxa que ganha asas à noite. Ela pousa nos telhados e muros das casas e emite um assobio ensurdecedor e contínuo.
Para fazer a criatura ir embora, o morador precisa prometer um agrado em alta voz, dizendo algo como: “Pode passar amanhã aqui para buscar seu café e seu tabaco!”. No dia seguinte, uma velhinha andarilha aparece na porta da residência para cobrar o que foi prometido. Se o morador não entregar o fumo ou o café, a casa é amaldiçoada com fustigações e maus agouros.
A relação com o Saci-Pererê
Em algumas regiões do interior do Brasil, o mito da ave se cruza com o mito do Saci. Há quem acredite que o pássaro não é uma bruxa, mas sim o próprio Saci-Pererê transformado em ave para despistar caçadores e percorrer grandes distâncias pela mata.
Essa associação provavelmente surgiu devido ao pequeno topete avermelhado da Tapera naevia, que lembra o famoso gorro vermelho do personagem folclórico, além do canto misterioso que parece vir de um ser invisível.
A Matinta-Pereira muda conforme o estado?
Uma das coisas mais ricas da cultura brasileira é que a história ganha contornos diferentes em cada canto do país:
- Pará e Amazonas: domina a versão clássica da bruxa de uma perna só que exige tabaco, café, cachaça ou peixe frito.
- Maranhão: em muitas comunidades, a criatura é vista como um espírito protetor das florestas que pune quem caça em excesso ou destrói a mata.
- Região Nordeste: o foco costuma mudar para a figura do mensageiro, onde o assobio noturno da ave é interpretado por alguns como aviso de mudanças no tempo ou visitas inesperadas.
- Comunidades indígenas: em diversas etnias amazônicas, o canto do pássaro é respeitado como uma mensagem de ancestrais que já se foram.
Curiosidades sobre a ave e o mito
- Presença na MPB: O assobio marcante e o nome da lenda foram imortalizados na música popular brasileira. Tom Jobim citou o termo na clássica canção “Águas de Março”, e a banda brasileira Armahda dedicou uma música inteira ao tema.
- Canto difícil de localizar: o assobio da Tapera naevia costuma dar a impressão de vir de diferentes direções, um efeito acústico que contribuiu para o surgimento de inúmeras lendas.
- Dificuldade de avistamento: A despeito de ser ouvida com extrema facilidade, a ave é muito difícil de ser enxergada no meio da folhagem devido ao seu comportamento arisco e à sua coloração neutra.
Mitos e verdades sobre a Matinta-Pereira
- “A Matinta-Pereira é uma ave.” ❌ Mito. A Matinta-Pereira é a personagem folclórica. A ave real que originou a história é a Tapera naevia.
- “O canto da ave traz azar ou maldição.” ❌ Mito. O assobio é apenas uma manifestação natural da ave para comunicação e proteção de território.
- “Existe uma espécie de ave real por trás da lenda.” ✔ Verdade. A Tapera naevia é a espécie silvestre documentada pela ciência que inspirou o mito.
O que ninguém te conta
O surgimento da lenda da Matinta-Pereira revela algo fascinante sobre a formação da nossa cultura: os grandes mitos brasileiros nasceram da observação atenta da natureza pelos povos originários e sertanejos.
Diante do desconhecido — como o som forte de um animal oculto na escuridão da mata —, a mente humana cria histórias para explicar o mundo ao seu redor. Isso aconteceu com o som misterioso do urutau, com o olhar das corujas, com o brilho do fogo-fátuo que virou o boitatá e com o assobio ventríloquo da Tapera naevia. O folclore é, na sua essência, a zoologia interpretada pela poesia e pelo mistério.
Vale a pena conhecer a ave?
Com certeza. Desmistificar as lendas não tira o encanto da nossa cultura; pelo contrário, adiciona respeito e admiração pela vida silvestre.
Proteger a Tapera naevia e o seu habitat é garantir que as futuras gerações continuem ouvindo esse canto misterioso nas nossas matas e mantendo viva a memória das histórias que moldaram a identidade do Brasil. Preservar a nossa fauna é também proteger a nossa história.
Consultoria científica: Maurício Terra Júnior, biólogo.
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