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A paleontologia brasileira acaba de testemunhar uma das descobertas mais inusitadas e importantes dos últimos tempos: a identificação de uma nova espécie de pterossauro a partir de um vômito fossilizado de pterossauro (ou peloto). O fóssil, que data do Período Cretáceo (entre 145 e 66 milhões de anos atrás), foi encontrado na Bacia do Araripe, no Nordeste do Brasil. A raridade do achado reside no fato de que o material — resgatado na década de 1980, mas mantido por 40 anos no acervo do Museu Câmara Cascudo (UFRN) — foi recentemente identificado por uma equipe de pesquisadores brasileiros, liderada pela Dra. Aline Ghilardi (UFRN).
O vômito fossilizado de pterossauro é um achado que revoluciona o estudo da paleoecologia, pois a análise do seu conteúdo revela hábitos alimentares detalhados e, neste caso, o nome de uma nova espécie: Bakiribu waridza. Os pesquisadores concluíram que um dinossauro carnívoro maior, provavelmente um espinossaurídeo, comeu o pequeno pterossauro, mas o regurgitou antes da digestão, misturado a peixes. Portanto, essa descoberta é valiosa por preencher uma lacuna na história evolutiva dos pterossauros filtradores e por reforçar a importância da Bacia do Araripe no cenário científico mundial.
A saga do fóssil esquecido
A história deste peloto começa de forma discreta. Inicialmente, a peça foi catalogada como um conjunto de peixes fósseis comuns. O material permaneceu intocado por décadas na coleção do museu, até que a equipe de pesquisa decidiu reavaliar o acervo. A importância de reexaminar coleções antigas reside justamente no potencial de identificar vestígios antes ignorados, mas de valor inestimável. Dessa forma, a equipe encontrou o vômito fossilizado de pterossauro e percebeu que a massa continha, além dos restos de peixes, um crânio parcial e ossos de um pterossauro juvenil.
Por que o pterossauro foi regurgitado?
Apesar de ter sido ingerido, o pequeno pterossauro não foi digerido. Os cientistas levantaram a hipótese de que o predador era um grande dinossauro carnívoro, provavelmente um espinossaurídeo ou outro predador que caçava na água, que regurgitou o peloto como parte natural de seu processo digestivo. Isto é, ele descartou as partes menos nutritivas e mais difíceis de digerir. Curiosamente, essa cadeia alimentar de “peixe -> pterossauro -> dinossauro predador” foi preservada em um único achado fóssil.
Bakiribu waridza: a nova espécie
A análise detalhada do crânio e dos ossos identificou características únicas, levando à descrição de uma nova espécie: Bakiribu waridza. O nome, em referência a uma palavra Tupi que significa “aquilo que foi devolvido/retornado”, é uma homenagem clara ao modo incomum de sua descoberta através do peloto. O Bakiribu pertence ao grupo dos ctenocasmatoideos e se destaca por ser um pterossauro filtrador.
Dieta e ecologia do Bakiribu
A principal conclusão sobre o Bakiribu é sua dieta especializada. Similarmente a flamingos e baleias modernas, o formato de seu crânio sugere que ele filtrava pequenos invertebrados e plâncton na água. O fato de o vômito fossilizado de pterossauro conter restos de peixes sugere que, ou o Bakiribu tinha uma dieta mais variada que o esperado, ou os peixes foram ingeridos pelo predador que o comeu. De fato, a descoberta fornece informações valiosas sobre o ecossistema aquático e terrestre do Cretáceo brasileiro.
Marco para a paleontologia
A identificação do Bakiribu waridza a partir de um vômito fossilizado de pterossauro é um marco para a paleontologia. Ela demonstra que mesmo os fósseis mais modestos, ou aqueles negligenciados por décadas em acervos, podem esconder descobertas científicas de grande relevância. Em suma, o achado reforça a importância das coleções de museus e a necessidade de reexaminar constantemente o vasto material paleontológico brasileiro. A Bacia do Araripe se consolida, portanto, como um dos sítios mais ricos para o estudo da vida pré-histórica.
Por MB.
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