
Imagem: IA Google
ma nova análise de pegadas fossilizadas está lançando luz sobre um dos mistérios da paleontologia: como os pterossauros, os fascinantes répteis voadores que dominaram os céus da era Mesozoica, se moviam em terra. Conhecidas como Pteraichnus, essas marcas de pegadas fornecem insights cruciais sobre a evolução da locomoção terrestre desses animais. A nova pesquisa sobre a locomoção e pegadas de pterossauros sugere que eles desenvolveram uma marcha eficiente sobre quatro membros muito antes do que se pensava. Por muito tempo, a forma como eles andavam no solo foi um tema de intenso debate entre os paleontólogos, com algumas hipóteses sugerindo um andar desajeitado.
Os pterossauros eram criaturas verdadeiramente notáveis e incrivelmente diversas. Eles não eram dinossauros, mas sim um grupo distinto de répteis alados, primos distantes. Suas asas eram formadas por uma complexa membrana de pele, músculo e outros tecidos que se estendia do seu quarto dedo, incrivelmente alongado, até suas pernas. Existiam desde pterossauros pequenos, do tamanho de um pardal, até gigantes como o Quetzalcoatlus (Quetzalcoatlus northropi), com uma envergadura de asa comparável à de um avião pequeno. Embora fossem mestres do voo, passando grande parte de suas vidas no ar, eles também precisavam se locomover em terra para caçar, coletar alimentos, descansar, acasalar e reproduzir. As pegadas fossilizadas de Pteraichnus, encontradas em várias partes do mundo, são janelas valiosas que preservam a forma exata como esses animais caminhavam.
A reanálise que mudou a perspectiva
Estudos anteriores, baseados em fósseis esqueléticos e nas primeiras interpretações de pegadas, sugeriam que os pterossauros mais primitivos provavelmente tinham uma marcha desajeitada sobre duas pernas, talvez se arrastando, enquanto os grupos mais avançados teriam adotado uma locomoção quadrúpede mais ágil. No entanto, essa visão foi desafiada. Uma reanálise detalhada da morfologia e da distribuição dessas pterossauros pegadas, realizada por uma equipe interdisciplinar de pesquisadores, revelou um padrão surpreendente.
O estudo mais influente nesse campo, publicado na revista Scientific Reports em 2018, teve a participação de cientistas de diversas instituições de prestígio, como o Royal Veterinary College (Reino Unido), a University College Dublin (Irlanda), a Queen Mary University of London (Reino Unido) e o Fukui Prefectural Dinosaur Museum (Japão). A pesquisa foi liderada por paleontólogos renomados como Peter L. Falkingham e David W. E. Hone.
As novas evidências indicam que a capacidade de andar eficientemente sobre quatro membros evoluiu relativamente cedo na história dos pterossauros. As características das pegadas mostram impressões claras dos quatro membros – tanto as mãos quanto os pés – com um padrão de passada consistente que sugere uma locomoção coordenada, estável e até mesmo eficiente. Essa descoberta implica que a transição para uma marcha quadrúpede pode ter sido uma adaptação crucial para o sucesso ecológico dos pterossauros, permitindo-lhes explorar melhor os ambientes terrestres, seja para forragear em diferentes nichos ou para escapar de predadores.
Implicações da locomoção para a vida dos pterossauros
Essa descoberta desafia a visão anterior de uma progressão linear e simples da locomoção bípede para a quadrúpede nos pterossauros. Em vez disso, sugere uma história mais complexa, onde a locomoção quadrúpede surgiu como uma estratégia locomotora vantajosa em um estágio inicial da evolução desses fascinantes répteis voadores.
Como explicou o Dr. David W. E. Hone, um dos autores do estudo: “Por muito tempo, o que pensávamos sobre como os pterossauros se moviam no solo vinha principalmente de seus esqueletos, e havia muita discussão sobre se eram bípedes ou quadrúpedes. Mas as pegadas, especialmente as mais antigas, são evidências diretas. Elas nos mostram que a locomoção quadrúpede era algo que eles podiam fazer muito cedo, e que talvez fosse a norma para a maioria deles, não apenas para os maiores e mais avançados. Isso muda bastante nossa compreensão sobre o comportamento terrestre desses animais incríveis.”
Essa nova visão, fundamentada em evidências robustas de pterossauros pegadas, nos permite construir uma imagem mais precisa de como os pterossauros viviam, caçavam e interagiam com seus ambientes terrestres, adicionando uma camada extra de complexidade à sua já fascinante biologia. A paleontologia, como sempre, continua a nos surpreender com revelações sobre o passado distante do nosso planeta.
Fontes:
¹ Falkingham, P. L., Mücke, H. A., Bestwick, J., Dyke, G. J., Hone, D. W. E., Kaye, J. S., … & 松川正樹. (2018). Trackway evidence of basal pterosaurs walking with an avian-like pes. Scientific Reports, 8(1), 1636. (Royal Veterinary College, University College Dublin, Queen Mary University of London, Fukui Prefectural Dinosaur Museum, entre outras instituições).
² Lockley, M. G., Harris, J. D., & Mitchell, L. (2008). Pterosaur tracks and trackmakers: morphology, systematics and paleoecology. Geological Society, London, Special Publications, 294(1), 185-212. (University of Colorado Denver, entre outras instituições).
³ Klein, H., Stein, K., Sander, P. M., & Mallison, H. (2013). Track morphology and gait parameters of quadrupedal pterosaurs based on a new ichnospecies from the Upper Jurassic of Germany. Palaeontology, 56(3), 547-565. (Universität Bonn, entre outras instituições).
Por MB.
Leia mais: Estudo revela que ancestral do T. rex migrou da Ásia para a América do Norte