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Cientistas analisam os morcegos vistos pelos humanos

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Esses mamíferos alados têm presença vasta no folclore e nas artes. Pixabay

Há tempos que humanos e morcegos partilham as mesmas paisagens, por vezes as mesmas casas. Por todo o mundo são conhecidas mais de 1.400 espécies de morcegos. E estes mamíferos alados, diferentes de todos os outros, têm uma presença vasta no folclore e nas artes.

“Quando os primeiros hominídeos deram os primeiros passos, os morcegos já tinham explorado os céus escuros há tempo suficiente para irradiarem em direção a uma diversidade espantosa e colonizarem a maioria dos habitats onde hoje são encontrados”, afirma Ricardo Rocha, pesquisador do CIBIO-InBIO – Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Universidade do Porto), um dos co-editores desse número especial dedicado ao tema “Etnobiologia dos Morcegos”.

Mas ainda assim, apesar de provavelmente terem coabitado em cavernas e terem servido como alimento – como ainda acontece hoje – “estes mamíferos na sua maioria notívagos, rápidos voadores e reservados eram provavelmente tão enigmáticos para os ancestrais dos humanos como são para a maioria de nós hoje em dia”, conta o cientista.

Assim, os leitores da revista são transportados “em uma viagem pelo mundo para explorar as inter-relações entre morcegos e humanos” através de sete estudos de etnobiologia que se focam na região da Ásia-Pacífico, Escandinávia, Madagáscar, Namíbia, Camboja e a ilha das Flores (Indonésia Oriental).

É possível saber “muitas das diferentes maneiras em que os morcegos têm estado representados em culturas humanas ao longo do tempo e do espaço”, acrescenta Álvaro Fernández-Llamazares, outro co-editor, pesquisador na Universidade de Helsínquia, na Finlândia.

No artigo de introdução ao número especial da revista (com acesso livre), por exemplo, descobrimos que certas culturas – em especial no Sudeste Asiático, China e Japão – associam estes animais à sorte e à boa fortuna e a eles recorrem como amuletos espirituais. Já no México, há vários grupos indígenas que os consideram “mensageiros do submundo e importantes símbolos de fertilidade”.

O objetivo principal da revista, disse Ricardo Rocha, é “ajudar a construir sinergias entre o conhecimento científico internacional, as prioridades de conservação e valores culturais locais, que em conjunto podem promover um mundo melhor para os humanos e para os seus companheiros noturnos de longo prazo, os morcegos”.

Raposas voadoras (Pteropus rufus) a serem vendidas em um mercado em Madagáscar para consumo humano. Foto: Adrià López-Baucells/Reprodução

Uma vez que a etnobiologia se debruça sobre as formas “como as comunidades humanas interagem com o mundo natural”, pode contribuir para a construção de “estratégias culturalmente apropriadas” no que respeita à gestão das relações entre humanos e morcegos. Tanto para ajudar a diminuir possíveis riscos relacionados com doenças zoonóticas, como na contribuição para a conservação desses animais.

Estigma negativo

O pesquisador sublinha que “o estigma negativo contra os morcegos voltou a ganhar forças” devido à pandemia de Covid-19, mas que esses mamíferos “contribuem para o bem-estar humano e a saúde dos ecossistemas e os múltiplos serviços de ecossistema que providenciam numa escala local e global”.

Entre os estudos agora publicados há um sobre as relações entre humanos e morcegos na ilha de Madagáscar, na África, que inclui os resultados de mais de 100 entrevistas a membros de dois grupos étnicos que vivem em torno do Parque Nacional de Ranomafana, considerada “uma das áreas protegidas com maior biodiversidade em Madagáscar”.

“Conseguimos identificar que cerca de 10% dos entrevistados já tinham consumido morcegos e que cerca de 20% usaram fezes de morcego como fertilizante. Cerca de um quinto das pessoas entrevistadas conhecia tabus culturais que inibem a caça e o consumo de morcegos, e a maioria considerava-os não perigosos”, disse Wilder Ricardo Rocha, um dos co-autores deste estudo.

Mas nem todos pensavam assim: “Alguns dos entrevistados mencionaram que os morcegos podem transmitir doenças e reclamaram do mau cheiro e do ruído associado a colônias de morcegos existentes em casas e prédios públicos”, acrescenta. Ainda assim, salienta: “Cerca de 25% dos entrevistados conseguiram identificar representações culturais de morcegos no folclore local, entre elas uma história muito popular na qual morcegos frugívoros são apresentados como heróis por ter usando as suas asas para salvar a floresta de um incêndio gigante”.

Fatos curiosos

E na verdade, à medida que os cientistas ganham novos conhecimentos sobre este grupo de animais, “algumas conotações menos positivas associadas aos morcegos estão aparentemente a começar a dar origem à curiosidade e vontade de apoiar sua conservação”.

Exemplos? Descobriu-se há pouco tempo que o morcego-rabudo (Tadaria teniotis), existente em Portugal, consegue atingir velocidades superiores a 130 quilômetros por hora. Sabe-se hoje, também, que os morcegos-vampiros – grupo de espécies da América Central e do Sul – “constroem relações cooperativas análogas à amizade humana compartilhando refeições com indivíduos não aparentados”.

A celebração do crescimento deste apoio à conservação pode ser vista, exemplifica o pesquisador, quase todos os dias no estado americano do Texas. Ali, na cidade de Austin, “até 100 mil visitantes testemunham o emergir de cerca de 1,5 milhões de morcegos que habitam debaixo da ponte Ann W. Richards Congress Avenue, no centro de uma cidade com cerca de um milhão de habitantes.”

Fonte: Wilder.pt