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Como os cães chegaram às Américas? Um fragmento de osso antigo contém pistas

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Os pesquisadores analisaram o genoma de um cão. Foto: Pixabay

A história dos cães se confunde, desde os tempos antigos, com a dos humanos que os domesticaram. Mas até onde vai essa história nas Américas, e que rota os cães usaram para entrar nesta parte do mundo?

Um novo estudo científico conduzido pela Universidade de Buffalo (UB), nos Estados Unidos, traz uma visão sobre essas questões. Uma pesquisa relaciona que um fragmento ósseo encontrado no sudeste do Alasca pertence a um cão que viveu na região há cerca de 10.150 anos. Os cientistas dizem que os restos mortais – um pedaço de um fêmur – representam os restos mais antigos confirmados de um cão doméstico nas Américas.

Os pesquisadores analisaram o genoma mitocondrial do cão e concluíram que o animal pertencia a uma linhagem de cães cuja história evolutiva divergiu da dos cães siberianos já em 16.700 anos atrás. O momento dessa divisão coincide com um período em que os humanos podem ter migrado para a América do Norte ao longo de uma rota costeira que incluía o sudeste do Alasca.

A pesquisa foi publicada em 24 de fevereiro nos “Proceedings of Royal Society B“. Charlotte Lindqvist, uma bióloga evolucionista da UB, foi a autora sênior do estudo, que incluiu cientistas da UB e da Universidade de Dakota do Sul. As descobertas aumentam o conhecimento sobre a migração de cães para as Américas.

“Agora temos evidências genéticas de um cão antigo encontrado ao longo da costa do Alasca. Como os cães são um substituto da ocupação humana, nossos dados fornecem não apenas um momento, mas também um local para a entrada de cães e pessoas nas Américas. Nosso estudo apoia a teoria de que essa migração ocorreu exatamente quando as geleiras costeiras recuaram durante a última Idade do Gelo “, destaca Lindqvist, PhD, professor associado de ciências biológicas na UB College of Arts and Sciences.

“Tem havido várias ondas de cães migrando para as Américas, mas uma questão é: quando os primeiros cães chegaram? E eles seguiram um corredor interior sem gelo entre enormes camadas de gelo que cobriam o continente norte-americano, ou foi sua primeira migração ao longo da costa? “, questiona.

“O registro fóssil de cães nas Américas está incompleto, então qualquer novo vestígio encontrado dá pistas importantes”, comenta Flavio Augusto da Silva Coelho, um estudante de doutorado em ciências biológicas da UB e um dos primeiros autores do artigo. “Antes de nosso estudo, os mais antigos ossos de cães americanos que tiveram seu DNA sequenciado foram encontrados no meio-oeste dos Estados Unidos.”

Um achado surpreendente em uma grande coleção de ossos

A equipe de Lindqvist não se propôs a estudar cães. Os cientistas encontraram o fragmento do fêmur enquanto sequenciavam o DNA de uma coleção de centenas de ossos escavados anos antes no sudeste do Alasca por pesquisadores como Timothy Heaton, PhD, professor de ciências da terra na Universidade de Dakota do Sul.

“Tudo isso começou com nosso interesse em como as mudanças climáticas da Idade do Gelo impactaram a áreas e os movimentos dos animais nesta região”, diz Lindqvist. “O sudeste do Alasca pode ter servido como uma espécie de ponto de parada sem gelo, e agora – com nosso cão – achamos que uma migração humana precoce pela região pode ser muito mais importante do que alguns suspeitavam anteriormente.”

O fragmento de osso, originalmente pensado ter vindo de um urso, era bem pequeno, mas quando o DNA foi estudado, a equipe percebeu que era de um cachorro, segundo Lindqvist.

Após essa descoberta, os cientistas compararam o genoma mitocondrial do osso com o outros cães antigos e modernos. Esta análise revela que o cão do sudeste do Alasca compartilhou um ancestral comum cerca de 16.000 anos atrás com caninos americanos que viveram antes da chegada dos colonizadores europeus, diz Lindqvist. (O DNA mitocondrial, herdado da mãe, representa uma pequena fração do DNA completo de um organismo, portanto, o sequenciamento de um genoma nuclear completo pode fornecer mais detalhes se esse material puder ser extraído.)

É interessante que uma análise do isótopo de carbono no fragmento ósseo indica que o antigo cão do sudeste do Alasca provavelmente tinha uma dieta marinha, que pode ter consistido em alimentos como peixes e restos de focas e baleias.

A pesquisa adiciona profundidade à história em camadas de como os cães vieram para povoar as Américas. Como observa Lindqvist, os caninos não chegaram todos de uma vez. Por exemplo, alguns cães árticos chegaram mais tarde do Leste Asiático com a cultura Thule (o povo Thule são os ancestrais da atual população groenlandesa), enquanto os huskies siberianos foram importados para o Alasca durante a corrida do ouro (a corrida do ouro nos Estados Unidos foi um período histórico (meados do século 19) em que muitas pessoas foram do leste para o oeste em busca das minas de ouro na Califórnia). Outros cães foram trazidos para as Américas por colonizadores europeus.

“Nosso primeiro cão do sudeste do Alasca sustenta a hipótese de que a primeira migração humana e de cães ocorreu através da rota costeira do noroeste do Pacífico, em vez do corredor continental central, que se acredita ter se tornado viável apenas cerca de 13.000 anos atrás”, observa Coelho.

Fonte: University at Buffalo