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Estudo observacional da USP acompanhou um grupo de macacos-prego que usa pedras para quebrar cocos

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Trabalho descreve como o comportamento dos macacos-prego em usar predas como ferramentas foi sendo adquirido por esses animais ao longo de seu desenvolvimento. Foto: Pixabay

Não é nenhuma novidade que macacos-prego (Sapajus libidinosus) e outros primatas não humanos utilizam pedras e varetas como ferramentas para obter determinados alimentos. Mas descrever como ocorre esse processo, que faz uma simples pedra se transformar em uma ferramenta, é algo inovador. É isso que propõe uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP (Universidade de São Paulo) que acompanhou um grupo de macacos-prego que usa pedras para quebrar cocos. O estudo observacional de longo prazo ocorreu na Fazenda Boa Vista, região no sul do Piauí, e descreve como esse comportamento foi sendo adquirido durante o desenvolvimento dos animais do grupo.

Os resultados da pesquisa mostraram que as pedras vão assumindo um valor de ferramenta na medida em que os macacos-prego aprendizes (aqueles que ainda não sabem quebrar o coco) vão ficando focados na quebra e se tornando proficientes e obtendo sucesso na tarefa.

Esse processo de aprendizagem é longo e pode levar até cinco anos para ser bem-sucedido. Os animais precisam considerar aspectos como o peso, o formato e o tipo de pedra escolhida para realizar a tarefa, o tipo de bigorna (apoio para colocar o coco e evitar que ele escorregue durante o processo), a força empregada e o movimento corporal para quebrar o alimento, ajustar o peso da pedra de acordo com o tamanho do coco, entre outros fatores.

A professora Patrícia Izar aponta que o animal proficiente sabe exatamente quais pedras usar e o que deve fazer para conseguir quebrar o coco. Mas o aprendiz, não. “No começo, esse aprendiz se aproxima do proficiente e pega alguns restos de coco, começa a manipular algumas pedras. Mas demora até uns cinco anos para ele atingir a perfeição da quebra”, aponta Patrícia.

Os achados foram descritos no artigo “Revisiting the fourth dimension of tool use: how objects become tools for capuchin monkeys”, publicado em março na revista científica “Evolutionary Human Sciences”, e que faz parte da pesquisa de doutorado realizada no Instituto de Psicologia por Andrès Ballesteros-Ardila, sob orientação da professora Briseida. “É uma pesquisa de ponta, publicada em uma revista reconhecida internacionalmente com destaque na área da primatologia”, diz ela.

Da pedra à ferramenta

O estudo observacional de longo prazo foi realizado entre junho de 2016 e maio de 2018, na Fazenda Boa Vista, região sul do Piauí, numa área de transição de biomas entre a Caatinga e o Cerrado. Os pesquisadores colocaram câmeras fixas para filmar a atividade de um grupo de cerca de 33 macacos-prego, em quatro momentos: dois na estação seca e dois na chuvosa. Por meio da análise dos vídeos, foi possível acompanhar o desenvolvimento dos animais aprendizes neste processo de uso de pedras como ferramenta e de como esse processo foi sendo adquirido ao longo do tempo.

Porém, quando há maior variabilidade comportamental, é porque a atividade de quebra ainda não está tão estabelecida e os macacos ainda não são tão eficientes e precisam ficar perto daqueles que já quebram o coco, pois assim comem os restos, esteja o quebrador próximo ou não.

“Não é que o macaco imitou o outro e fez igual. Eles ficam perto uns dos outros observando a ação, mas não vimos uma replicação imediata, como uma imitação, por exemplo”, esclarece Briseida.

Alimentação dos macacos-prego e origem do projeto

De acordo com a professora Patrícia, os macacos-prego são onívoros e o coco é somente um entre vários outros alimentos que eles ingerem. Não é o mais importante da dieta, eles podem passar muito bem sem comê-lo, mas é um recurso rico do ponto de vista energético, porém, muito custoso de se obter. Na Fazenda Boa Vista, os animais comem cocos da piaçava e das palmeiras catulé, catuli e tucum. Além do coco, os macacos-prego também incluem na dieta cajus e suas castanhas.

Desde 2005, as pesquisadoras estudam os animais no sul do Piauí, na Fazenda Boa Vista, e esses estudos sempre contaram com a colaboração de moradores locais. Esta reportagem, publicada em 2017 pelo Jornal da USP, descreve como o projeto na Fazenda Boa Vista foi iniciado.

Mas os estudos iniciais da professora Briseida envolvendo macacos-prego remontam a 1995, quando ela, assim como a professora Patrícia, estudaram os animais no Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo.

Uma das diferenças entre os animais dos dois lugares é que no parque ecológico os macacos-prego foram introduzidos. Já na Fazenda Boa Vista eles estão no ambiente natural. “No parque paulista, os primatas também usam ferramentas para quebrar o coco jerivá, que é menor, necessitando de menos golpes para se romper, o que pode ser feito com pedras mais leves do que na Fazenda Boa Vista, onde os martelos chegam a pesar dois quilos. Isso mostra que os macacos se ajustam às propriedades dos recursos de seus ambientes.”

As pesquisadoras contam que, em 2004, foram publicados dois artigos sobre o uso de ferramentas por macacos-prego na Fazenda Boa Vista e na Serra da Capivara, também no Piauí.

Na Serra da Capivara, os estudos são realizados por outro grupo de pesquisa, coordenado pelo professor Tiago Falótico, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. E os animais estudados usam diferentes tipos de ferramentas, como varetas e pedras com múltiplas funções.

A partir desses estudos, outros foram surgindo, envolvendo a presença desses animais no Cerrado e na Caatinga.

Por Valéria Dias/Jornal da USP