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Os golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) são há muito tempo celebrados como algumas das criaturas mais inteligentes do planeta, vivendo em complexas sociedades e exibindo traços como empatia, autoconsciência e habilidades notáveis de resolução de problemas. Eles se comunicam usando uma sofisticada variedade de cliques, estalidos e, principalmente, assobios, sendo que os “assobios de assinatura” (AS) funcionam como nomes para cada indivíduo. Agora, uma nova e fascinante pesquisa pode ter encontrado evidências de algo semelhante a uma linguagem compartilhada entre eles.
Uma equipe de cientistas, liderada pela bióloga Laela Sayigh da Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), em Woods Hole, Massachusetts, nos Estados Unidos, concentrou seus esforços em um tipo de vocalização pouco explorada: os assobios “sem assinatura” (NSW). Até agora, essas vocalizações haviam recebido pouca atenção da comunidade científica. Entretanto, o novo estudo sugere que esses assobios podem funcionar como “palavras”, sendo compartilhados entre diversos golfinhos e usados para comunicar informações específicas em contextos variados.
A pesquisa que desvendou os ‘vocabulários’
Para entender a função dos NSWs, a equipe usou experimentos de reprodução de sons no ambiente natural. Os pesquisadores, em parceria com o Programa de Pesquisa de Golfinhos de Sarasota (SDRP), utilizaram uma vasta biblioteca de sons de golfinhos, catalogando tanto assobios de assinatura quanto os assobios sem assinatura, para identificar padrões.
Os resultados foram surpreendentes. De acordo com Sayigh, foram identificados dois tipos de NSW que parecem ter funções claras:
- NSWA: Este tipo de assobio, que provoca uma resposta de evasão nos golfinhos, parece funcionar como um sinal de alarme.
- NSWB: Produzido em situações inesperadas, este assobio sugere uma função de “consulta” ou “pergunta”, como se o animal estivesse questionando a natureza de um estímulo desconhecido.
A pesquisa revelou que os NSWs são incrivelmente comuns, compondo cerca de metade dos assobios produzidos pelos golfinhos da região de Sarasota, na Flórida. O estudo, que ganhou o primeiro prêmio no Desafio Coller Dolittle por sua inovação, aponta que 22 tipos de NSW são compartilhados, com o NSWA e o NSWB sendo usados por pelo menos 25 e 35 golfinhos diferentes, respectivamente.
O futuro da comunicação animal
Os pesquisadores afirmam que, como os golfinhos são capazes de aprender a produzir novos sons ao longo da vida, é provável que esses assobios compartilhados sejam aprendidos e transmitidos culturalmente. Esta é uma ideia revolucionária, já que a maioria dos mamíferos não humanos não possui a mesma flexibilidade vocal.
Ainda que Sayigh ressalte que a ideia de que os NSWs são “semelhantes a palavras” é apenas uma hipótese, o estudo fornece a primeira evidência de que os golfinhos possuem um repertório mais amplo de sinais compartilhados e específicos a um contexto, algo que pode ser a base para um sistema de comunicação parecido com a linguagem humana.
A pesquisa, por fim, representa um passo gigantesco em nossa jornada para entender o complexo mundo da comunicação animal.
Fontes:
- Artigo original (pré-impressão): “First Evidence of Wide Sharing of Stereotyped, Non-Signature Whistle Types by Wild Dolphins.” Disponível em bioRxiv.
- Notícia em inglês: Reportagem do site EcoWatch, por Paige Bennett.
- Comunicado de imprensa: Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI).
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Por MB.
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