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Os tubarões formam ‘amizades’ que duram anos, dissipando o mito do ‘tubarão solitário’

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Cientistas registraram interações entre tubarões. Foto: Pixabay

Muitas pessoas pensam que os tubarões são seres poderosos, misteriosos e solitários que deslizam pelas profundezas do mar. Esta noção parece adequada, já que estes peixes são há muito retratados como predadores solitários que surgem do nada para atacar.

Contudo, esta imagem tem sido mais escrutinada nos últimos anos, com investigadores de tubarões de todo o mundo a descobrirem que estes peixes se reúnem em grande número e que interagem com outros da sua própria espécie de formas decididamente amigáveis.

Yannis Papastamatiou, cientista marinho da Universidade Internacional da Flórida, e a sua equipa usaram transmissores acústicos para registar as interações entre cerca de 40 tubarões-cinzentos-de-recife ao longo de quatro anos em torno do Atol de Palmyra, a sudoeste do Havai.

O estudo desta equipa, publicado em 2020 na revista “Proceedings of the Royal Society B”, descobriu que os tubarões de recife regressaram às mesmas comunidades ano após ano, formando preferências claras pela companhia de outros indivíduos, com algumas “amizades” que perduraram ao longo do estudo.

“Agora sabemos que os tubarões conseguem formar associações sociais com outros indivíduos durante anos”, diz Yannis, que também é Explorador da National Geographic. A investigação desta equipa vai ser destacada no episódio “Shark Gangs” do SharkFest, que estreia dia 18 de julho às 17:00 no National Geographic Wild. As associações sociais dos tubarões podem ter durado mais, mas os dados estão limitados às baterias de quatro anos dos transmissores.

Outra investigação publicada na revista “Scientific Reports” encontrou redes sociais complexas entre tubarões-touro ao longo da costa leste dos Estados Unidos, relações que outrora eram estritamente consideradas do domínio de mamíferos de ordem superior, como chimpanzés, diz Danielle Haulsee, que liderou o estudo enquanto estava na Universidade de Delaware.

Neste estudo de 2016, Danielle e os seus colegas descobriram que os tubarões individuais marcados com dispositivos de gravação tiveram milhares de interações com os seus pares, passando até quatro dias consecutivos com alguns deles.

Estas evidências crescentes podem acabar com os estereótipos dos tubarões enquanto máquinas robóticas que matam pessoas, diz Jasmin Graham, bióloga marinha do Laboratório Marinho Mote em Sarasota, na Flórida.

“Por exemplo, esta investigação sobre a personalidade e vida social dos tubarões mostra que eles são realmente muito mais parecidos connosco do que imaginávamos”, diz Jasmin, que também é presidente e CEO da Minorities in Shark Science, uma organização que se dedica a ajudar mulheres negras a derrubar as barreiras necessárias para entrar neste campo de investigação.

Tubarões a partilhar os mares

Conseguir determinar as razões que levam os tubarões a socializar – e quanto do seu comportamento é cooperativo – é um desafio, mas existem algumas pistas, como a disponibilidade de alimento e águas mais quentes devido às alterações climáticas.

Os grandes tubarões-brancos, sobretudo os mais jovens, estão a aparecer em número recorde ao longo das praias do sul da Califórnia, dado que a sua população recuperou desde 1994, quando a espécie foi protegida por este estado norte-americano.

Recorrendo a imagens de drones que atuam como “satélites espiões” e transmissores que rastreiam tubarões individuais, Chris Lowe, diretor do Shark Lab da Universidade Estadual da Califórnia, em Long Beach, e a sua equipa identificaram 53 tubarões individuais entre a costa de San Diego e Santa Bárbara em 2020.

Embora os grandes tubarões-brancos normalmente mantenham distâncias de cerca de nove metros uns dos outros e não pareçam muito “camaradas”, como diz Chris, os animais são claramente atraídos pela mesma preferência por uma área.

“Acreditamos que é análogo a um parque ou pátio de uma escola – alguns estão a comer, outros estão apenas a conviver, alguns estão a tentar evitar os mauzões”, diz Chris. “Portanto, a questão passa por saber porque é que estes jovens [tubarões] vêm para este parque, o que os atrai?”

Chris tem algumas teorias. As raias, o seu alimento preferido, são abundantes na área. Estar perto da costa também oferece proteção contra predadores, como tubarões maiores. E à medida que as temperaturas no Pacífico sobem devido às alterações climáticas, os grandes tubarões-brancos estão a seguir o aquecimento das águas cada vez mais para norte.

Saber se os tubarões unem esforços para caçar já é mais difícil de descobrir, diz Matt Smukall, diretor do Laboratório de Tubarões de Bimini, nas ilhas Bimini das Bahamas. Por exemplo, algumas espécies, como o tubarão-touro e o tubarão-de-pontas-negras-de-recife, agrupam-se às dezenas quando os peixes desovam em massa, parecendo por vezes que estão a encurralar as suas presas.

“Será que se trata de uma cooperação verdadeira, com os tubarões a trabalharem deliberadamente juntos para otimizar as suas condições de caça?” pergunta Matt. “Pode simplesmente haver uma enorme abundância de comida e todos aparecem para o banquete.”

De qualquer forma, diz Matt, os tubarões ganham: “O que é bom para um tubarão é bom para os outros tubarões, e o sucesso aumenta para todos.”

As correntes de água favoráveis também podem ser a razão pela qual os tubarões se reúnem, acrescenta Yannis.

Num novo estudo publicado em julho de 2021, Yannis documentou um comportamento surpreendente em tubarões-cinzentos na Polinésia Francesa – estavam a surfar. Centenas de tubarões foram observados a surfar ondas juntos, dando-lhes a oportunidade de economizar energia – e até mesmo de dormir.

“Temos procurado explicações para o motivo de os tubarões se reunirem em determinados lugares e isto oferece uma resposta”, diz Yannis. “Estas descobertas também se podem aplicar a outras áreas costeiras e, possivelmente, explicar por que razão os tubarões podem preferir uma área em vez de outra.”

Tipos de personalidade

Em alguns casos, pode não existir um propósito óbvio para a camaradagem entre tubarões. No Laboratório de Tubarões de Bimini, Matt Smukall e os seus colegas descobriram que os jovens tubarão-limão procuram a companhia de outros tubarões sem um motivo aparente. Há evidências crescentes de que os tubarões-limão têm as suas próprias personalidades, algo que pode influenciar se passam mais tempo com outros tubarões.

Os tubarões-limão bebé observados em recintos de águas abertas no seu habitat nativo demonstraram uma variedade de temperamentos sociais, com alguns animais gregários a envolverem-se frequentemente em interações, enquanto que outros permanecem mais distantes, preferindo ficar sozinhos.

Tal como acontece com os humanos, estas diferenças de personalidade podem desempenhar um papel no sucesso e até na sobrevivência. Por exemplo, os tubarões-limão bebés considerados mais exploradores nos recintos de habitat, que depois foram marcados com dispositivos de gravação, também correram mais riscos na natureza, aventurando-se mais para longe para encontrar comida, o que os fez crescer e amadurecer mais depressa, de acordo com a investigação de Matt.

Porém, este sentido de aventura também teve um preço; os tubarões maiores e mais velozes também tinham taxas de sobrevivência mais baixas, porque se tornavam mais propensos a encontrar predadores.

Mais segredos para descobrir sobre tubarões

Saberíamos muito mais sobre a vida íntima dos tubarões se este campo de investigação não fosse tão recente, devido em parte à falta de financiamento e à reputação negativa dos tubarões. “Só tivemos cerca de 20 anos para começar realmente a estudar os tubarões”, diz Chris Lowe.

Para agravar este problema, as populações de tubarões continuam em declínio, em grande parte devido à sobrepesca. Os tubarões e raias sofreram um impressionante declínio populacional de 70% desde 1970, com os tubarões-de-recife numa situação particularmente complicada.

Contudo, graças a iniciativas como a Minorities in Shark Science, a ciência dos tubarões está a expandir-se e a diversificar-se de formas que nunca imaginámos serem possíveis, diz Jasmin Graham.

“Acredito que vamos descobrir muito mais sobre os tubarões nos próximos anos”, diz Jasmin. “É emocionante pensar que vamos compreendê-los melhor do que nunca.”

***Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com