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Pesquisadores da USP criam maior banco de dados de interações entre morcegos e plantas

Esses animais silvestres são responsáveis pela dispersão de sementes. Fotos: Canvas

Pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), em parceria com outras instituições, criaram o maior banco com informações científicas sobre interações dos morcegos com as plantas, com foco em espécies que se alimentam de frutos e néctar. “Esses animais silvestres, ameaçados pela perda ou fragmentação de seu habitat, têm uma função crucial na dinâmica da natureza. Interagem com diversos ecossistemas, sendo inclusive responsáveis pela dispersão de sementes e polinização das plantas, serviços ambientais que resultam na manutenção e regeneração de florestas, restingas e cerrados, além de serem predadores de pragas e vetores de doenças”, explica ao Jornal da USP o pesquisador Marco Mello, professor do Departamento de Ecologia, do Instituto de Biociências (IB) da USP e coordenador do NeoBat Interactions.

Direcionado a pesquisadores da área, o banco de dados foi construído em formato de data paper – com código aberto para novas inserções – e possui até o momento cerca de 2.571 registros. Ao todo, foram incluídas interações entre 93 espécies de morcegos da família Phyllostomidae (morcegos com folha nasal) e 501 espécies de plantas de 68 famílias. Essas interações foram registradas em 169 estudos científicos realizados do sul da Argentina ao sul dos EUA, incluindo Brasil, Costa Rica, México e outros países latinos. “O NeoBat Interactions é de longe o banco de dados sobre interações ecológicas mais extenso em termos geográficos e taxonômicos [classificação biológica]”, diz o pesquisador.

Em janeiro, o NeoBat foi oficialmente lançado em um artigo publicado na revista Ecology, cujo primeiro autor é o biólogo Guillermo Florez-Montero, doutorando da Universidade Federal do ABC (UFABC) e co-orientado pelo professor Marco Mello. O pesquisador explica que um dos desafios enfrentados por cientistas dessa área é a obtenção de dados confiáveis sobre as interações ecológicas dos morcegos. “Além de ter que encontrá-los na natureza, à noite ou no crepúsculo, é preciso identificá-los, descrevê-los e obter evidências diretas ou indiretas de suas interações”, diz.

O novo banco de dados foi montado por uma equipe multidisciplinar de cientistas de diferentes países, incluindo estudantes, pós-doutorandos e pesquisadores. O ponto de partida foi outro banco de dados disponibilizado on-line em 2002, por Cullen Geiselman, da Bat Eco-Interactions Project (Houston, Texas, Estados Unidos), cujo conteúdo tinha finalidade didático-educacional e de despertar a curiosidades sobre esses animais silvestres.

“Filtramos, revisamos e organizamos o conteúdo dessa base de dados de acordo com as melhores práticas em ciência de dados: amostragem feita por, pelo menos, um ano, métodos de coleta de dados descritos de maneira reprodutível e acesso confirmado à publicação original. Também organizamos os dados de forma que pudessem ser facilmente usados em análises científicas”, diz Mello.

Todo o conhecimento científico produzido nesta área estava pulverizado em centenas de artigos, livros e teses em diferentes países, o que também dificultava se ter um olhar panorâmico sobre as interações. “O formato de data paper permitiu a reunião de todos esses dados produzidos em 70 anos (de 1957 a 2007) em um banco único, que pode ir sendo atualizado por cientistas de qualquer lugar do mundo”, relata Florez-Montero. No momento, os pesquisadores estão trabalhando para fazer atualização do banco para incluir investigações feitas até o ano vigente.

Espécies brasileiras de morcegos

A maioria dos registros do NeoBat Interactions é de espécies brasileiras, em torno de 34%. Desses, a grande maioria possui dieta baseada em frutos, são os frugívoros, 75,1%. Os 24,9% restantes são nectarívoros, que se alimentam do néctar das flores. Muitos desses morcegos podem consumir os dois tipos de alimentos e ainda comer outras coisas, como pólen, folhas, sementes, insetos, sapos, ratos e aves.

As espécies de morcegos incluídas no banco de dados, em sua maioria, ocorrem em todas as regiões brasileiras, em diversos tipos de ambientes, de florestas à caatinga, diz o pesquisador. A maior concentração de espécies se dá nos biomas da Mata Atlântica e Amazônia. Usam uma enorme variedade de abrigos para morar, podendo ser encontrados dentro de cavernas e ocos de árvores, pendurados embaixo ou dormindo dentro de folhas, e até mesmo ocupando construções humanas, como pontes e telhados.

A grande maioria das espécies brasileiras possui dieta baseada em frutos

Os gêneros de morcegos mais bem representados na base de dados são Artibeus (28% de todos os registros), Carollia (24%), Sturnira (10,1%) e Glossophaga (8,8%). Carollia perspicillata (187), Artibeus lituratus (125), Artibeus jamaicensis (94), Glossophaga soricina (86) e Artibeus planirostris (74) foram as espécies de morcegos com as dietas mais amplas (plantas diferentes) registradas com base no número de espécies vegetais.

Entre as plantas, as famílias foram a Moraceae (17%), Piperaceae (15,4%), Urticaceae (9,2%) e Solanaceae (9%). Plantas dos gêneros Cecropia (46), Ficus (42), Piper (40), Solanum (31) e Vismia (27) apresentaram o maior número de interações. “Trata-se de plantas pioneiras, ou seja, que estão entre as primeiras a crescer em um ambiente que foi destruído por ação humana ou por causas naturais. Os morcegos comem os frutos dessas plantas e depois espalham as sementes por áreas enormes, especialmente ao defecarem durante o voo ou ao descansarem entre suas atividades.

Fake news: morcegos vampiros

O professor Mello disse que costuma ser questionado sobre morcegos que sugam sangue de animais e que potencialmente poderiam sugar o sangue de humanos. Ele explica que essa possibilidade é remotíssima porque o sangue não é a principal dieta da esmagadora maioria desses animais silvestres. Das 181 espécies de morcegos atualmente registradas no Brasil (veja a lista atualizada no site da Sociedade Brasileira para o Estudo de Quirópteros, apenas três são hematófagas: o morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus), o morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngi) e o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata). “A fama deturpada que se criou em torno deles talvez seja pelo fato de serem transmissores da raiva, mas qualquer outro mamífero [cão e gato, por exemplo] pode também transmitir a raiva”, completa. “Não precisamos ter medo dos morcegos, precisamos respeitá-los e deixá-los viver em paz no seu habitat natural”, diz.

A importância de preservar os morcegos

Segundo o professor Mello, os morcegos prestam diversos serviços ambientais e é importante preservá-los. Um dos exemplos citados pelo biólogo é o controle de populações de pragas agrícolas. A presença desses animais silvestres, que se alimentam de insetos (mariposas, gafanhotos e mosquitos), em zonas rurais traz uma economia de bilhões para os agricultores pela redução do uso de pesticidas.

Mello lembra ainda que os morcegos são fontes inspiradoras de pesquisas científicas e que muito do que temos hoje de tecnologia foi bioinspirada no comportamento, na morfologia e na fisiologia desses animais silvestres. O aparelho de ultrassom médico, por exemplo, foi baseado no biossonar dos morcegos, uma sofisticada capacidade que eles têm para detectar a posição e avaliar a textura de objetos ou animais através de emissão de ondas ultrassônicas. Vários medicamentos prescritos para tratar problemas de circulação foram desenvolvidos a partir de anticoagulantes presentes na saliva do morcego-vampiro-comum.

Por Ivanir Ferreira/Jornal da USP