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Retrospectiva 2020: um ano intenso na proteção das espécies ameaçadas

Tamanduá, uma das espécies vítimas dos incêndios ocorridos em 2020 no Pantanal.
Foto: Denis Doukhan/Pixabay

No ano em que o relatório Planeta Vivo, da rede WWF (World Wide Fund for Nature), trouxe preocupantes dados sobre a perda de biodiversidade ao redor do mundo, e as queimadas no Pantanal e na Amazônia atingiram direta e indiretamente milhares de animais silvestres, ações para a conservação de espécies ameaçadas em diversos biomas brasileiros foram destaques no trabalho em defesa da vida no WWF-Brasil.

De símbolos nacionais, como botos à onça-pintada, aos animais da Mata Atlântica e à fauna do Cerrado, passando pela biodiversidade dos mares e oceanos, além de estudos sobre a contaminação por mercúrio -decorrência dos garimpos ilegais-, o cuidado com as espécies também foi um norte da atuação da organização. 

Ameaças aos botos

Em janeiro, uma expedição com 12 pesquisadores da Sardi (sigla em inglês para Iniciativa dos Botos da América do Sul) percorreu o rio Amazonas para dimensionar as populações destes cetáceos de água doce e obter mais informações sobre as ameaças que eles enfrentam. A iniciativa é formada pelas organizações Faunagua, Fundação Omacha, Instituto Mamirauá, Prodelphinus e WWF.

Em fevereiro, a primeira notícia: mais de 900 botos foram rastreados ao longo do rio Amazonas -no Brasil, Peru e Colômbia-, com o alerta para uma quantidade menor na zona brasileira. As principais ameaças aos animais, segundo os pesquisadores, são ferimentos causados por hélices de embarcações.

Em junho, os resultados das expedições começaram a aparecer e a Sardi celebrou mais um passo em direção ao desenvolvimento de um Plano de Manejo e Conservação para proteção dos botos nos rios Amazonas, Orinoco, Tocantins e Araguaia, que cobrem Brasil, Colômbia, Equador e Peru.

Em outubro, os pesquisadores o projeto, representando cinco países sul-americanos, lançou a plataforma Botos Amazônicos, uma ferramenta cujo objetivo é disseminar informações sobre os “golfinhos de rio” da região amazônica. O WWF-Brasil é um dos facilitadores desse coletivo desde seu surgimento, em 2017.

Espécies aquáticas

Em março, o WWF-Brasil lançou um guia para ajudar na conservação de tubarões e arraias. O Guia Prático para Planejamento e Gestão Eficazes de Áreas Marinhas Protegidas para Tubarões e Raias faz parte dos esforços contínuos da ONG para desenvolver e compartilhar os estudos e recursos mais recentes para a conservação e o gerenciamento da vida marinha com base em estudos científicos.

Em junho, com o objetivo de apresentar os modelos de protocolos de avaliação de risco de importação de espécies de peixes e invertebrados aquáticos em elaboração e discutir sua calibração e validação, a 1ª Oficina para Validação dos Protocolos de Avaliação de Risco de Invasão de Espécies Aquáticas (Peixes e Invertebrados) foi realizada em parceria com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

No mesmo mês foram concluídas as expedições destinadas a avaliar o estado de conservação das espécies aquáticas da Mata Atlântica, no âmbito do PAN Peixes e Eglas da Mata Atlântica (Plano de Ação Nacional para a Conservação de Espécies de Peixes e Eglas Ameaçados de Extinção da Mata Atlântica), que tem a meta de melhorar o estado de conservação e popularizar peixes, algas, rios e riachos do bioma em cinco anos.

Meses depois, em agosto, a divulgação de um estudo realizado por pesquisadores do WWF-Brasil, Fiocruz e outras instituições alertou: no Amapá, os peixes mais contaminados por mercúrio pelas atividades de garimpo são justamente os mais consumidos, o pirarucu, o tucunaré e o trairão. A concentração de mercúrio nos peixes coletados pelos cientistas excedeu o limite de segurança em 77,6% dos peixes carnívoros.

Conscientização, estratégia e planejamento

No dia 19 de junho de 2020, foi comemorado pela primeira vez o Dia Mundial do Albatroz, a data que homenageia essas aves migratórias e conscientiza sobre as ameaças que enfrentam na atualidade, também relembra a assinatura do Acordo Internacional para Conservação de Albatrozes e Petréis, em 2001, na Austrália. O compromisso conta com a participação de 13 países e busca conservar albatrozes e petréis, coordenando atividades internacionais para mitigar ameaças às populações dessas espécies.

Em 19 de junho foi comemorado pela primeira vez o Dia Mundial do Albatroz. Foto: Good Gallagher/Pixabay

Em junho e julho, em plena crise das queimadas no Brasil, a fim de minimizar os efeitos das chamas sobre os animais, a SOS Amazônia realizou, com o apoio do WWF-Brasil, o seminário online “Cuidados e Procedimentos de Resgate de Fauna Afetada pela Atividade do Fogo no Estado do Acre”, no qual integrantes de organizações da sociedade civil, da academia, de órgãos de proteção e de fiscalização ambiental debateram a questão para estabelecimento de protocolos.

No Pantanal, ações emergenciais em prol da fauna, que sofreu – e ainda sofre – direta e indiretamente com as queimadas recordes, foram tomadas. Um levantamento preliminar foi feito pelo Instituto Arara-Azul, com o apoio de parceiros como o WWF-Brasil, apontou que mais de 90% da Fazenda São Francisco do Perigara, refúgio de araras-azuis, foi destruído pelas chamas.

Além disso, a doação de remédios ajudou no tratamento de animais feridos pelo fogo e resgatados em diversas regiões de Mato Grosso do Sul. Na lista de espécies levadas ao Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres) estavam onças-pintadas, lobinhos, tamanduás, araras, anta, cotia e gavião-telha que habitam o Pantanal e também áreas de Cerrado.

Em agosto, um conjunto de 137 organizações da sociedade civil, entre elas o WWF-Brasil, assinou um manifesto, direcionado aos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal pedindo a revogação de decretos e portarias editadas pelo Governo Federal que favorecem a flexibilização da legislação em favor da caça e do acesso às armas de fogo.

No mês seguinte, um estudo que dissertava sobre a importância crucial dos parques e reservas para a conservação da fauna ameaçada de extinção no Cerrado era publicado. De acordo com a pesquisa, realizada no Mosaico Sertão Veredas Peruaçu, as áreas com maior nível de proteção têm 2,7 vezes mais espécies de grande porte. Parte da coleta de dados foi financiada pela parceria entre o WWF-Brasil – que atua no mosaico desde 2010 – e o Instituto Biotrópicos.

Em novembro, a ONG lançou a Estratégia de Conservação da Onça-Pintada 2020-2030. Coordenada pela Rede WWF em parceria com outras organizações, a estratégia promoverá atividades econômicas sustentáveis, como agrofloresta e restauração florestal comunitária, em benefício das populações humanas que coexistem com o felino. O plano, que tem duração de 10 anos, será um guia para as ações de conservação da onça-pintada na América Latina. A estratégia contempla 15 paisagens prioritárias, em 14 dos 18 países onde o felino ainda vive, inclusive no Brasil.

Pró-Espécies

Em maio, uma oficina realizada pelo IEF (Instituto Estadual de Florestas) de Minas Gerais, deu início ao PAT (Plano de Ação Territorial) Espinhaço Mineiro para proteção de espécies em risco. O evento tinha o objetivo de realizar o levantamento inicial de dados relevantes para a elaboração do plano territorial, iniciativa que integra o Projeto GEF Pró-Espécies: Estratégia Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas, financiado pelo Funbio (Fundo Mundial para o Meio Ambiente), coordenado pelo MMA (Ministério do Meio Ambiente) e que tem o WWF-Brasil como agência executora em âmbito nacional.

Em julho, uma boa notícia para a conservação da fauna e da flora no Cerrado de Tocantins. O Naturatins (Instituto Natureza do Tocantins) publicou uma portaria estadual com foco nas diversas e singulares espécies do bioma, que precisam de instrumentos de conservação por serem mais vulneráveis.

Também em julho, os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul oficializaram a elaboração do PAT Planalto Sul para a conservação de espécies ameaçadas de extinção na região, que tem como vegetação nativa a Mata Atlântica, um dos biomas brasileiros com maior abrangência e mais ameaçados pela perda de habitat.

Planeta Vivo

O Relatório Planeta Vivo 2020, divulgado em setembro pela rede WWF, trouxe dados importantes sobre a perda de biodiversidade ao redor do mundo e nos diferentes continentes. Enquanto o mundo como um todo viu uma queda de 68% no tamanho das populações de espécies desde 1970, as informações do relatório mostram que a América Latina tem o pior índice do planeta, com redução de 94% nesta área. Porém, o próprio documento confirma que boas práticas de conservação podem ajudar a amenizar ou mesmo a reverter este cenário.

Um recorte brasileiro do relatório, mostrou tendências para as espécies brasileiras e como a análise de dados de conservação podem ensinar o que fazer, ou não, para ter sucesso no trabalho da ONG em defesa da vida.


Por WWF-Brasil