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Tenebroso câncer facial que aflige o diabo-da-tasmânia não está se propagando como antes

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Nas últimas três décadas, uma doença tumoral vem se disseminando entre a espécie por meio de mordida. Foto: Meg Jerrad/Pixabay

Há quase um ano, desde que os primeiros casos de covid-19 surgiram no mundo todo e o tema “vírus” passou a ser muito abordado pela humanidade. Contudo, nas últimas três décadas, o diabo-da-tasmânia vem sofrendo com sua própria pandemia — um tenebroso câncer facial disseminado por meio da mordida.

Os tumores nesses marsupiais australianos causam feridas profundas na boca, que levam o animal à morte por inanição. Além disso, esse tipo de câncer, ao contrário de quase todos os outros, é contagioso.

A doença tumoral facial do diabo-da-tasmânia, como é denominada, reduziu a população da espécie de 140 mil para cerca de 20 mil animais. A doença se dissemina com facilidade porque esses animais agressivos costumam morder uns aos outros durante a época de reprodução ou enquanto disputam as carcaças, sua principal fonte de alimentos.

Muitos especialistas temem que, se esse padrão continuar, a espécie passará de ameaçada de extinção para completamente extinta. Em resposta, os cientistas criaram diabos-da-tasmânia em cativeiro e, no início deste ano, reintroduziram 26 dos animais na Austrália continental. Medindo pouco mais de meio metro de comprimento, esses carnívoros já foram abundantes na natureza por todo o continente australiano e em sua ilha-estado da Tasmânia. Atualmente, foram reduzidos aos indivíduos que vivem na Tasmânia.

Mas um novo estudo sobre a genômica do câncer, publicado recentemente na revista científica “Science”, apresenta uma surpreendente luz no fim do túnel: a taxa de infecção da doença entre os diabos-da-tasmânia diminuiu muito desde seu surgimento, sugerindo que esses animais podem coexistir com a doença.

“Isso é potencialmente muito promissor, pois significa que a doença não está se propagando pelas populações naturais como acontecia antes”, afirma o líder do estudo Austin Patton, biólogo evolucionista da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Está desacelerando.”

Redução na transmissão

Os cientistas constataram o câncer nos diabos-da-tasmânia pela primeira vez em 1996, embora provavelmente tenha se originado nas décadas de 1970 ou 1980. Em 2015, os pesquisadores concluíram que a doença tumoral facial do diabo-da-tasmânia é, na verdade, duas condições distintas, conhecidas como DFT1 e DFT2. Embora ambas as variedades causem tumores praticamente indistinguíveis e levem à inanição e à morte, os dois tipos de câncer são geneticamente distintos. Também têm origens independentes: a DFT2 surgiu em um diabo-da-tasmânia macho na extremidade oposta da ilha de onde a DFT1 se originou, em uma fêmea.

“A descoberta da DFT2 por nosso grupo foi uma grande surpresa para nós, por conta da raridade de tumores transmissíveis em vertebrados”, declara Bruce Lyons, imunologista da Universidade da Tasmânia e coautor do estudo publicado na revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences”.

Apenas um pequena fração de cânceres infecciosos foi identificada na natureza, incluindo um que afeta cães domésticos e outro que atinge uma espécie de amêijoa (Mya arenaria).

Para compreender melhor como a DFT1 está se propagando entre a população de diabos-da-tasmânia, Patton e seus colegas empregaram uma técnica chamada filodinâmica, normalmente utilizada para estudar vírus em geral.

Abordagens filodinâmicas reconstroem como um patógeno se dissemina e evolui ao longo do tempo, por meio da análise de seus genes. Para realizar essa análise, a equipe de Patton utilizou amostras coletadas de 51 tumores de diabos-da-tasmânia começando no início da década de 2000.

Por volta de 2003, quando a amostragem foi iniciada, a equipe constatou que o câncer se espalhava a uma taxa de cerca de 3,5, segundo Patton. Isso significa que sempre que um diabo-da-tasmânia era infectado com a doença, ele provavelmente transmitia a infecção a 3,5 outros infortunados animais.

No entanto, em 2018, quando a última amostra foi coletada, Patton e colegas concluíram que o fator de disseminação do câncer reduziu para cerca de um, o que, de acordo com Patton, significa que é improvável que o câncer leve a espécie à extinção.

Mas não são necessariamente boas notícias, avisa ele. A taxa mais baixa de transmissão pode ser simplesmente porque, com tão poucos animais dessa espécie remanescentes, o câncer não consegue se propagar com tanta eficiência. Além disso, o estudo não analisou a DFT2, cuja taxa de infecção permanece desconhecida.

Câncer complicado

Outro estudo, publicado na revista científica “PLOS Biology” em novembro, sugere que o histórico de câncer nos diabos-da-tasmânia é ainda mais complicado.

Elizabeth Murchison, geneticista da Universidade de Cambridge, e colegas constataram que a DFT1 se apresenta em cinco tipos diferentes, ou clados, sendo que cada um deles pode infectar o mesmo animal. Podemos comparar essa tese com o câncer de mama quando se espalha para o cérebro, pulmões e fígado, afirma Murchison por e-mail: “de certa forma, houve metástase da DFT1 entre a população de diabos-da-tasmânia”.

E essas diferenças genéticas podem afetar a forma como a espécie se recupera. Por exemplo, Lyons atualmente trabalha no desenvolvimento de uma vacina para evitar que os diabos-da-tasmânia propaguem a doença, porém ele precisa levar em consideração essas complexidades genéticas que podem dificultar ainda mais o processo.

Da mesma forma, a reintrodução dos diabos-da-tasmânia na natureza pode não dar certo se esses animais criados em cativeiro não tiverem determinadas adaptações evolutivas que os ajudem a combater a doença.

É exatamente por isso que diabos-da-tasmânia em cativeiro não foram soltos na Tasmânia desde 2016, afirma Carolyn Hogg, bióloga conservacionista da Universidade de Sydney. Por outro lado, os animais da espécie recentemente libertados na Austrália continental nunca tiveram contato com o câncer.

“As populações estão persistindo apesar da presença da doença”, declara Hogg, bem como outras ameaças ao seu futuro, como consanguinidade, fragmentação do habitat, atropelamentos por veículos e muitas outras.

Fonte: National Geographic Brasil