
Imagine encontrar uma cápsula do tempo perfeita, enterrada no gelo profundo há impressionantes 700 mil anos. Agora, imagine que essa cápsula do tempo é, na verdade, um pequeno pedaço de cocô fossilizado de um roedor pré-histórico. Embora pareça uma brincadeira, cientistas acabam de realizar essa descoberta impressionante no norte do Canadá, revolucionando tudo o que sabemos sobre o passado do nosso planeta.
Pesquisadores analisaram fezes congeladas e encontraram fragmentos preservados de DNA de mamutes, bisões, cavalos e até de grandes felinos predadores. Essa descoberta inusitada funciona como a porta de entrada para uma verdadeira viagem no tempo, revelando em detalhes como era a vida no auge da era do gelo.
Entenda rápido
Antes de fazermos esse mergulho na história da Terra, veja os pontos principais dessa incrível descoberta científica:
- Pesquisadores analisaram fezes congeladas de antigos esquilos-terrestres-do-Ártico.
- O material estava perfeitamente preservado no permafrost do Canadá.
- Foram encontrados vestígios de DNA de mamutes, bisões, cavalos e grandes felinos.
- Com toda a certeza, algumas amostras têm cerca de 700 mil anos.
- O estudo ajuda a reconstruir o ecossistema da era do gelo com precisão inédita.
Como era a era do gelo há 700 mil anos
Para compreender a importância desse achado, é preciso entender como era o planeta naquele período remoto. A Terra passava por ciclos intensos de resfriamento global, conhecidos popularmente como a era do gelo. As temperaturas médias eram absurdamente mais baixas do que as atuais, e gigantescas geleiras cobriam grande parte da América do Norte e da Europa.
As paisagens não eram florestas densas, mas sim uma vasta planície aberta e congelada, conhecida como a estepe do mamute. Nesse cenário desafiador, a vegetação era rasteira, composta por gramíneas resistentes, musgos e fungos que conseguiam sobreviver ao inverno rigoroso e prolongado.
O que era Beríngia
No meio desse deserto gelado existia uma região estratégica chamada Beríngia. Esse território antigo englobava o que hoje conhecemos como a Sibéria, na Ásia, e o Alasca e o território de Yukon, na América do Norte.
Durante o auge da era do gelo, o nível dos oceanos baixou tanto que uma gigantesca ponte de terra se formou ligando os dois continentes. Desse modo, a Beríngia funcionou como o principal elo de migração do planeta. Por essa estrada natural, diversas espécies de plantas e grandes mamíferos caminharam de um lado para o outro, colonizando novas terras.
Os gigantes da era do gelo
Com o propósito de desvendar quem habitava a Beríngia, o DNA encontrado nas fezes dos esquilos revelou um ecossistema pulsante. O pequeno esquilo-terrestre-do-Ártico (Urocitellus parryii) dividia espaço com verdadeiros monstros da natureza. Confira as principais espécies identificadas na pesquisa:
Mamute-lanoso
O imponente mamute-lanoso (Mammuthus primigenius) foi uma das espécies mais emblemáticas das estepes frias da pré-história. Coberto por uma camada grossa de pelos densos e uma gordura interna isolante, esse gigante usava suas presas curvadas para afastar a neve e encontrar vegetação no solo congelado.
Bisão-das-estepes
O bisão-das-estepes (Bison priscus) era um herbívoro massivo, muito maior do que os bisões modernos. Ele se deslocava em grandes manadas pelas planícies da Beríngia e servia como base alimentar para os grandes predadores da época.
Cavalos pré-históricos
Ao contrário do que muitos pensam, os cavalos selvagens (Equus) eram nativos da América do Norte durante a pré-história. Eles corriam em bandos pelas planícies frias antes de serem extintos do continente no final do período glacial.
Guepardo-americano
Uma das maiores surpresas no DNA foi a presença de felinos pré-históricos, incluindo o guepardo-americano (Miracinonyx trumani). Apesar do nome, os cientistas acreditam que ele era um parente próximo do puma moderno, adaptado para caçar em altíssima velocidade nas áreas abertas.
Lobos e lebres
Além dos gigantes, animais menores e predadores versáteis também deixaram suas marcas genéticas. O lobo-cinzento (Canis lupus) e a lebre-americana (Lepus americanus) já corriam por aquelas terras, provando que algumas espécies conseguiram sobreviver até os dias de hoje praticamente sem alterações.
Outras criaturas impressionantes
Além dos animais detectados diretamente no estudo dos esquilos, a era do gelo abrigava outras criaturas que desafiam a nossa imaginação. Conheça os principais animais extintos da época com seus nomes científicos correspondentes:
- Tigre-dentes-de-sabre (Smilodon populator): Possuía caninos superiores longos e afiados, ideais para emboscar e abater presas de grande porte.
- Preguiça-gigante (Megatherium americanum): Um animal colossal do tamanho de um elefante moderno, que vivia no chão e conseguia se apoiar nas patas traseiras para alcançar as folhas das árvores.
- Castor-gigante (Castoroides ohioensis): O maior roedor da história da América do Norte, chegando a medir mais de dois metros de comprimento.
- Urso-de-cara-curta (Arctodus simus): Um dos maiores mamíferos carnívoros terrestres que já existiram, sendo extremamente alto e veloz.
- Rinoceronte-lanoso (Coelodonta antiquitatis): Um parente robusto dos rinocerontes atuais, totalmente coberto de lã espessa para suportar o inverno ártico.

Como um cocô sobreviveu por 700 mil anos
A explicação para a preservação impecável desse material por 700 mil anos está em um fenômeno geológico chamado permafrost. O permafrost é uma camada de solo, rocha ou sedimento que permanece completamente congelada por milhares de anos seguidos.
No território de Yukon, no Canadá, esses antigos túneis de esquilos ficaram selados abaixo de camadas espessas de gelo e lama congelada, funcionando como um congelador industrial perfeito. Sem a presença de oxigênio, calor ou bactérias decompositoras, a matéria orgânica permaneceu intacta. Com toda a certeza, isso transformou o material no repositório de DNA antigo mais bem preservado já registrado.
O que os cientistas descobriram
De acordo com o primeiro autor do estudo, o pesquisador Tyler Murchie, os esquilos agiam de forma muito parecida com os roedores acumuladores de hoje em dia. Eles recolhiam pedaços de plantas, sementes, ossos e restos de carcaças deixadas por predadores para estocar em suas tocas. Ao defecarem em cima desses materiais acumulados, criaram uma rica mistura de informações biológicas.
O coautor do estudo, Hendrik Poinar, diretor do Centro de DNA Antigo da Universidade McMaster, celebrou o feito. Ele explicou que essas amostras oferecem um retrato detalhado sobre como as mudanças climáticas extremas afetam a evolução, dispersão e, infelizmente, a extinção em massa dos grandes animais do passado.
Vale a pena conhecer o passado
Em conclusão, a descoberta do DNA de mamutes e outras espécies em um elemento tão simples quanto as fezes de um esquilo mostra que a ciência pode encontrar pistas valiosas nos lugares mais inesperados. Longe de ser apenas uma curiosidade bizarra, esse estudo abre os olhos da humanidade para a fragilidade da vida diante das transformações climáticas da Terra, deixando uma lição valiosa sobre conservação e respeito ao planeta.
Fontes de consulta
- Estudo original: Ground squirrel coprolites preserve complex archives of ancient environmental DNA over 700,000 years – Publicado na revista científica Nature Communications (Junho de 2026).
- Dados e entrevistas: Portal Live Science e comunicados oficiais do Hakai Institute e McMaster University.
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