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Um novo estudo pode ter encontrado uma das explicações mais convincentes para um dos maiores mistérios da ciência climática: por que a Antártida se cobriu de gelo de forma permanente milhões de anos antes do Polo Norte? O trabalho foi conduzido por uma equipe internacional de geólogos e geofísicos especializados em evolução tectônica e dinâmica do manto terrestre, liderada pelo professor Thomas Gernon, da Universidade de Southampton. Utilizando modelos computacionais da movimentação das placas tectônicas ao longo de dezenas de milhões de anos, os pesquisadores reconstruíram a evolução da paisagem da Antártida Oriental para entender como o continente adquiriu as condições ideais para a formação permanente do gelo.
Até então, a principal explicação para o congelamento da Antártida era a redução gradual do dióxido de carbono na atmosfera e as mudanças na circulação oceânica. O novo estudo mostra que esses fatores continuam fundamentais, mas não contam toda a história. Segundo os pesquisadores, a elevação progressiva da Antártida Oriental também teve papel decisivo para que o continente atingisse primeiro as condições necessárias para manter gelo permanente. Essa transformação começou muito antes do que se imaginava, impulsionada por ondas térmicas no manto profundo da Terra após a fragmentação do supercontinente Gondwana e a separação gradual da Antártida da África, Austrália e outras massas continentais.
Entenda rápido
- A Antártida nem sempre foi congelada e já possuiu um clima temperado no passado.
- O continente do sul congelou cerca de 25 milhões de anos antes da região do Ártico.
- Uma nova pesquisa ajuda a explicar por que ela congelou muito antes do Ártico.
- A resposta para esse grande mistério está nas profundezas da Terra.
- Essa transição radical mudou completamente a vida e a evolução no planeta.

Como era a Antártida antes do gelo? (Lystrosaurus)
Hoje em dia, quando pensamos na Antártida, a primeira imagem que vem à mente é um deserto de gelo infinito, onde as temperaturas despencam para marcas quase impossíveis de suportar. No entanto, se tivéssemos uma máquina do tempo e voltássemos para o período entre aproximadamente 50 e 90 milhões de anos atrás, encontraríamos um cenário completamente invertido. O continente que hoje abriga o Polo Sul era uma terra vibrante, verdejante e repleta de vida.
Nesse passado remoto, a Antártida ainda não possuía qualquer camada permanente de gelo. Em vez disso, a paisagem exibia florestas densas e exuberantes, muito parecidas com as florestas temperadas que vemos hoje no sul do Chile, na Argentina e na Nova Zelândia. O solo era incrivelmente fértil, cortado por rios calmos e caudalosos, e o clima era úmido e ameno, permitindo que a vida prosperasse mesmo durante as estações com menos luz solar.
Essas florestas antigas contavam com árvores imensas, incluindo araucárias primitivas e uma grande variedade de plantas do gênero Nothofagus, conhecidas popularmente como falsas-faias. O sub-bosque era forrado por samambaias gigantes, musgos e plantas herbáceas que criavam um tapete verdejante por todo o território. Esse ambiente florestal fornecia o abrigo perfeito e alimento em abundância para uma enorme gama de criaturas pré-históricas.
A história ecológica da região mostra que a vida animal dominava essas matas. Muito antes dos dinossauros dominarem o continente, animais como o Lystrosaurus habitavam a região durante o período Triássico. O Lystrosaurus era um herbívoro robusto pertencente ao grupo dos terapsídeos, linhagem evolutiva que deu origem aos mamíferos modernos.
Milhões de anos depois, os dinossauros passaram a reinar soberanos naquelas florestas polares. Um dos animais mais impressionantes que já caminhou pelo continente foi o Cryolophosaurus (Cryolophosaurus ellioti), um grande carnívoro que possuía uma característica muito peculiar: uma crista óssea curvada no topo da cabeça. Esse visual exótico rendeu ao predador o apelido carinhoso de “Elvisaurus”, já que a crista lembrava bastante o icônico topete do cantor Elvis Presley.
Dividindo o mesmo espaço com o temido predador, andava o Antarctopelta (Antarctopelta oliveroi), um dinossauro herbívoro encouraçado, repleto de espinhos e placas protetoras na pele. O Antarctopelta possui uma enorme importância para a paleontologia mundial, pois foi o primeiro dinossauro descrito oficialmente na Antártida. Esses fósseis demonstram que o sul do nosso planeta já foi um caldeirão de evolução e biodiversidade tropical.
🦕 Curiosidade: o temido Cryolophosaurus ellioti
Quando viveu: Na Antártida, há cerca de 190 milhões de anos.
O “Elvisaurus” do passado: Este foi um predador impressionante de aproximadamente 6 metros de comprimento. Ele ficou conhecido mundialmente pelo apelido de “Elvisaurus” por causa de sua crista óssea exótica no topo da cabeça, que lembra muito o famoso penteado topete do cantor Elvis Presley.
Quando começou o congelamento?
A transformação da Antártida de um paraíso verde para um deserto congelado não aconteceu de forma repentina. Foi um processo lento, gradual e impulsionado por uma engrenagem climática e geológica que levou milhões de anos para se consolidar. Os cientistas apontam que o grande ponto de virada começou há cerca de 45 milhões de anos, quando o clima global deu os primeiros sinais de resfriamento.
No entanto, o congelamento definitivo e a formação das primeiras calotas de gelo permanentes e de grande escala ocorreram há cerca de 34 milhões de anos. Esse momento marca a transição entre duas grandes épocas geológicas: o Eoceno e o Oligoceno. Foi nesse período que a neve que caía durante o inverno parou de derreter quando o verão chegava. O acúmulo contínuo dessa neve deu origem aos glaciares que conhecemos hoje.
O que sempre intrigou a comunidade científica internacional é que o Polo Norte não acompanhou esse ritmo de resfriamento. Enquanto a Antártida já estava se transformando em uma gigantesca geladeira global há 34 milhões de anos, o Oceano Ártico permaneceu praticamente livre de gelo permanente por muito mais tempo.
Existe uma diferença de 25 milhões de anos entre o congelamento do sul e o do norte. O Ártico só começou a desenvolver suas primeiras camadas de gelo espessas e persistentes há cerca de 9 milhões de anos. Esse atraso histórico gerou um debate que durou décadas entre os especialistas em clima: afinal, o que fez um polo congelar dezenas de milhões de anos antes do outro se o planeta inteiro estava esfriando?
A nova teoria
Até então, a principal explicação para o congelamento da Antártida era a redução gradual do dióxido de carbono na atmosfera e as mudanças na circulação oceânica. O novo estudo mostra que esses fatores continuam fundamentais, mas não contam toda a história. Segundo os pesquisadores, a elevação progressiva da Antártida Oriental também teve papel decisivo para que o continente atingisse primeiro as condições necessárias para manter gelo permanente.
Para entender a descoberta feita pela equipe internacional de geólogos e geofísicos, podemos fazer uma analogia simples com o nosso cotidiano. Imagine colocar uma cidade inteira no topo de uma montanha extremamente alta. Todo mundo sabe que, quanto maior a altitude em que nos encontramos, mais frio o ar se torna e mais difícil fica para a neve derreter.
Foi exatamente isso o que aconteceu com o continente antártico. A nova pesquisa revelou que a Antártida não ficou apenas mais fria por causa do clima global; ela foi fisicamente empurrada para cima. Esse soerguimento fez com que o interior do continente ficasse muito mais alto do que o nível do mar, criando a altitude necessária para que a neve resistisse ao verão e começasse a se transformar em gelo eterno.
O papel do manto terrestre
Essa elevação colossal de quilômetros de rocha não aconteceu por mágica. Ela foi provocada por forças tectônicas brutais ocorrendo centenas de quilômetros abaixo dos nossos pés, em uma camada profunda chamada manto terrestre. O estudo utilizou modelos computacionais avançados para mapear o comportamento desse manto ao longo de dezenas de milhões de anos.
Tudo começou com a fragmentação do antigo supercontinente Gondwana, a gigantesca massa de terra que, no passado, unia os territórios que hoje formam a América do Sul, a África, a Índia, a Austrália e a própria Antártida. Conforme os continentes foram se separando, a litosfera sob a Antártida Oriental passou por um longo processo de reorganização tectônica, alterando lentamente a estrutura da região.
Essas mudanças desencadearam movimentos lentos no manto terrestre. Materiais mais quentes das profundezas ascenderam gradualmente, elevando a base da Antártida Oriental ao longo de milhões de anos. Esse soerguimento remodelou toda a geografia da região, formando um vasto planalto e cadeias de montanhas que favoreceram o acúmulo permanente de neve e gelo.
A Passagem de Drake
Enquanto o manto terrestre empurrava o continente para o alto, a movimentação das placas tectônicas abria um caminho crucial nos oceanos do sul: a Passagem de Drake. Esse é o nome dado ao braço de mar profundo que separa a ponta final da América do Sul, na região do Cabo de Hornos, do continente antártico.
Antes do continente se isolar completamente no Polo Sul, as correntes marítimas de águas quentes vindas da linha do equador conseguiam circular livremente pela costa da Antártida, mantendo o clima da região ameno e as florestas vivas. Porém, quando as placas tectônicas afastaram a América do Sul e à medida que a Passagem de Drake foi se abrindo, tudo mudou.
Com esse novo corredor marítimo aberto, estabeleceu-se a Corrente Circumpolar Antártica, a mais poderosa corrente oceânica do planeta. Essa corrente passou a circular continuamente ao redor do continente, funcionando como uma poderosa barreira de águas frias. Ela isolou a Antártida do restante do planeta, reduzindo a influência das águas mais quentes e favorecendo a manutenção da maior camada de gelo permanente da Terra.
Por que o Ártico não congelou junto?
Com o planeta inteiro sofrendo uma queda nos níveis de gases de efeito estufa e com o resfriamento global avançando, a pergunta natural que surge é: por que o Polo Norte conseguiu escapar desse congelamento por mais 25 milhões de anos? A resposta para essa disparidade histórica está em uma diferença geográfica gigantesca e fundamental entre as duas regiões.
A Antártida é um continente de rocha maciça cercado por oceanos profundos. O Ártico, por outro lado, é exatamente o oposto: ele é um oceano congelado cercado por massas de terra continentais. Essa distinção muda completamente a dinâmica de retenção de calor de cada polo.
Como o Ártico é composto por uma bacia oceânica situada ao nível do mar, a água do mar funciona como um imenso radiador térmico, absorvendo e armazenando o calor das correntes marinhas e da atmosfera de forma muito mais eficiente do que a rocha sólida. Além disso, o Ártico não passou pelo processo de elevação montanhosa provocado pelo manto terrestre que ergueu a Antártida. O norte permaneceu plano e baixo, exigindo um resfriamento global muito mais severo para que suas águas começassem a congelar de forma definitiva.
Como o gelo transformou a fauna da Antártida
A transição da Antártida verde para o continente branco causou um dos maiores impactos ecológicos da história da Terra. O desaparecimento completo das florestas temperadas de araucárias eliminou o habitat dos grandes répteis terrestres e dos mamíferos primitivos, provocando uma onda de extinções locais. No entanto, os animais precisaram evoluir junto com o gelo, e esse cenário extremo abriu espaço para o surgimento de uma fauna marinha altamente especializada.
Com o resfriamento extremo das águas do oceano austral, pequenas criaturas encontraram o ambiente perfeito para prosperar sob as placas de gelo marinho. O maior exemplo disso é o krill antártico (Euphausia superba), um minúsculo crustáceo que se alimenta de microalgas e se multiplicou em bilhões de toneladas. O krill tornou-se o combustível biológico da região, servindo de base para sustentar toda a cadeia alimentar do ecossistema polar.
Ao longo de milhões de anos, as espécies que permaneceram na região desenvolveram adaptações biológicas impressionantes para sobrevivir ao frio congelante. Surgiram, então, os animais emblemáticos que conhecemos hoje, como os pinguins-imperadores (Aptenodytes forsteri) e os pinguins-de-Adélia (Pygoscelis adeliae), que possuem camadas densas de penas impermeáveis e gordura espessa para suportar as nevascas.
Nos mares ricos em nutrientes da Antártida, mamíferos perfeitamente adaptados ao ambiente antártico e subantártico encontraram o seu lar definitivo. É o caso da foca-de-Weddell (Leptonychotes weddellii), com sua incrível capacidade de mergulhar a profundidades extremas, da foca-caranguejeira (Lobodon carcinophaga) e do gigantesco elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina). Nasceram também predadores implacáveis como o leopardo-marinho (Hydrurga leptonyx), além de diversas espécies de petréis e albatrozes que cruzam os céus polares, provando que o gelo não destruiu a vida, mas a moldou de forma genial.

O que existe escondido sob o gelo?
O manto de gelo que cobre a Antártida funciona como uma gigantesca capa que esconde uma geografia rica, misteriosa e praticamente intocada pelo ser humano. Utilizando tecnologias modernas de radares que conseguem atravessar a neve compactada, os cientistas descobriram que, debaixo do gelo, existe um mundo perdido repleto de surpresas geológicas.
Submersas sob quilômetros de água congelada estão as Montanhas Gamburtsev, a imensa cordilheira que foi erguida pelas ondas do manto terrestre há milhões de anos. Os picos dessas montanhas são tão altos e pontiagudos quanto os Alpes europeus, mas estão completamente protegidos da erosão do vento e da chuva pelo gelo protetor.
Além das montanhas, a maior descoberta dos últimos tempos foi a existência de lagos subglaciais. Cientistas já mapearam mais de 400 lagos de água totalmente líquida escondidos na base da calota polar. O calor geotérmico suave que vem do centro da Terra, combinado com a pressão esmagadora gerada pelo peso de quilômetros de gelo acima, faz com que essa água não congele.
O maior e mais famoso desses reservatórios é o Lago Vostok. Ele está isolado da atmosfera e do mundo exterior há milhões de anos, mantido em um estado de escuridão total e sob pressões extremas. Pesquisas científicas realizadas em amostras de lagos subglaciais, como o Lago Mercer e o Lago Whillans, revelaram a presença de bactérias e microrganismos vivos que sobrevivem sem luz solar direta e extraindo energia de minerais da rocha.
Esses possíveis ecossistemas isolados revolucionaram a biologia. Eles servem como modelos de estudo para agências espaciais como a NASA entenderem como a vida microbiana poderia existir em ambientes parecidos fora da Terra, como nas luas geladas Europa, de Júpiter, e Encélado, de Saturno.
O que isso muda para a ciência?
A descoberta de que o manto terrestre e o soerguimento tectônico foram os grandes responsáveis pelo congelamento precoce da Antártida muda profundamente a forma como a ciência analisa a história climática do nosso planeta. Ela prova que o clima não é ditado apenas pela composição dos gases na atmosfera, mas que o interior da Terra possui um papel ativo na regulação das temperaturas da superfície.
Ao integrar essa nova teoria geológica com os modelos climáticos já existentes, os cientistas conseguem aprimorar as ferramentas de computação utilizadas para prever o comportamento futuro das calotas polares. Entender detalhadamente os gatilhos físicos que fizeram a camada de gelo nascer há 34 milhões de anos é fundamental para calcular com maior exatidão o nível de sensibilidade e resistência desse gelo diante do aquecimento global moderno.
Curiosidades
- A Antártida já teve árvores: No passado, o continente era coberto por florestas densas de falsas-faias e araucárias ancestrais.
- Já teve rios: Grandes bacias hidrográficas cortavam as planícies antárticas antes do resfriamento global.
- A Antártida já foi terra de dinossauros: Grandes répteis como o carnívoro “Elvisaurus” e o encouraçado Antarctopelta reinaram no território.
- Gelo de cinco quilômetros: Em suas regiões mais profundas, a espessura da camada de gelo acumulada atinge quase 5.000 metros de altura.
- Cerca de 70% da água doce do planeta está armazenada na Antártida: A calota polar antártica concentra a maior parte de toda a água doce disponível no planeta Terra.
- Mais de 400 lagos escondidos: Existe uma rede imensa de água líquida correndo silenciosamente por baixo da camada de gelo.
O que ninguém te conta
O gelo da Antártida não surgiu de repente por causa de uma nevasca passageira ou de um inverno mais rigoroso. Ele foi construído lentamente durante milhões de anos por processos invisíveis acontecendo centenas de quilômetros abaixo dos nossos pés.
Enquanto os dinossauros desapareciam e novos mamíferos dominavam a Terra, o continente branco estava sendo preparado silenciosamente para se tornar um dos ambientes mais extremos do planeta. Os processos que ocorrem no manto terrestre agiram como verdadeiros escultores do continente, mostrando que o destino da vida na superfície está intimamente ligado ao coração de pedra da própria Terra.
Vale a pena entender nosso planeta
Entender por que a Antártida congelou milhões de anos antes do Ártico ajuda a explicar muito mais do que a história de um continente. Essa descoberta mostra como o interior da Terra, o clima e a evolução da vida estão profundamente conectados. Além de lançar uma nova luz sobre um antigo enigma geológico, o estudo oferece pistas importantes para compreender como as grandes camadas de gelo podem responder às mudanças climáticas nas próximas décadas. Conhecer o passado do planeta continua sendo uma das melhores formas de entender o seu futuro.
Fontes de pesquisa
- Artigo científico: Gernon TM et al. Continental breakup–driven uplift instigated East Antarctic Ice Sheet formation. Science (2026).
- Material de divulgação da American Association for the Advancement of Science (AAAS).
- Science Times.
- Phys.org.
- Informações complementares do British Antarctic Survey (BAS) e do Programa Antártico dos Estados Unidos (U.S. Antarctic Program).
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