
O Brasil é o país de maior biodiversidade do planeta, mas essa riqueza natural se transformou em uma mercadoria cobiçada. O tráfico de animais silvestres é a terceira maior atividade criminosa transnacional no mundo, atrás apenas do tráfico de drogas e armas, e possui um impacto devastador em nossa fauna, ecossistemas e até na saúde pública. De fato, o que muitos veem como apenas um animal de estimação exótico, é na verdade o resultado de um crime que movimenta bilhões de reais.
Este artigo é um guia didático para estudantes, biólogos e cidadãos conscientes que desejam entender a dimensão desse problema no Brasil. Portanto, exploraremos a definição do crime, os números por trás do comércio ilegal, as espécies mais visadas e, crucialmente, como o cidadão pode e deve agir para proteger o nosso patrimônio natural.
O que configura o crime de tráfico de animais silvestres?
O tráfico de animais silvestres envolve a captura, transporte, venda e manutenção ilegal de espécies nativas, sem a devida licença do órgão ambiental competente (como o IBAMA). Essa prática é tipificada como crime na Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98).
Tráfico em números: De acordo com o Relatório Nacional sobre o Tráfico de Fauna Silvestre (RENCTAS), o comércio ilegal de fauna movimenta cerca de US$ 20 bilhões anualmente no mundo. No Brasil, as estimativas apontam que a atividade gera um lucro de até R$ 2,5 bilhões por ano, com milhões de indivíduos sendo retirados da natureza anualmente.
Por que o Brasil é um dos maiores alvos dessa atividade?
A dimensão continental e a vasta biodiversidade da Mata Atlântica e da Amazônia tornam o Brasil um fornecedor quase inesgotável para o mercado internacional e nacional. Em outras palavras, nossa fauna única tem um alto valor agregado para colecionadores, e isso impulsiona as rotas de contrabando que se estendem por todo o território nacional.
O custo da extinção: O impacto na biodiversidade
O maior dano do tráfico de animais silvestres é silencioso: a extinção de espécies e a quebra do equilíbrio ecológico. Cerca de 80% a 90% dos animais capturados no tráfico morrem durante a jornada, vítimas de maus-tratos e péssimas condições de transporte, segundo dados do IBAMA.
A seleção de espécies mais visadas e sua função na natureza
As aves canoras (de canto bonito) são as maiores vítimas do tráfico no Brasil. Por exemplo, espécies como o curió (Oryzoborus angolensis), o bicudo (Sporophila maximiliani) e o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) são amplamente visadas. A remoção desses animais é catastrófica:
- Aves e Macacos (Primates) são essenciais para a dispersão de sementes e a polinização, garantindo a regeneração das florestas.
- Répteis (Reptilia) e anfíbios (Amphibia), também traficados, atuam no controle de pragas.
O custo social: risco de zoonoses e saúde pública
Além do dano ambiental, o tráfico representa um sério risco à saúde humana e animal.
A falta de controle sanitário e o perigo de novas pandemias
Animais traficados são mantidos em condições insalubres e estressantes, o que facilita a proliferação de vírus, bactérias e parasitas. Consequentemente, esses animais podem se tornar vetores de zoonoses perigosas (doenças transmitidas entre animais e humanos). O contato sem controle sanitário representa uma ameaça direta à saúde pública, podendo levar ao surgimento de surtos e até novas pandemias.
Ação e conscientização: o papel do cidadão
É crucial que a sociedade entenda que a compra de um animal silvestre de origem duvidosa financia toda essa cadeia criminosa.
“Nunca compre um animal silvestre em feiras, beiras de estrada ou anúncios online sem licença. A demanda alimenta o crime. Antes de adquirir qualquer espécie, procure sempre um criadouro ou estabelecimento oficialmente registrado no IBAMA. Além disso, informe-se se a espécie está na lista de animais que podem ser legalmente mantidos em cativeiro”, aconselha o biólogo Maurício Terra Júnior.
O biólogo reforça a necessidade de conscientização: “O tutor deve entender a ética. Um animal silvestre pertence à natureza, e a compra ilegal não só tira um indivíduo da fauna, como condena muitos outros à morte no processo de captura e transporte.”
Os canais oficiais para denúncia
Denunciar é um ato de cidadania e a principal forma de combate. A denúncia pode e deve ser feita de forma anônima.
- IBAMA: Linha Verde (0800 061 8080) ou pelo site oficial.
- Polícia Militar Ambiental: O contato varia por estado, mas é o canal mais rápido para flagrantes.
- Disque Denúncia: Em grandes capitais, use o serviço de disque-denúncia.
- RENCTAS: Recebe denúncias e ajuda a mapear as rotas do tráfico.
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O impacto do tráfico de animais vai muito além das estatísticas de mortes e dos bilhões movimentados. Ele representa uma falha ética e moral da sociedade em proteger a biodiversidade que nos sustenta. Portanto, a verdadeira questão que fica é: como podemos, como cidadãos conscientes e amantes dos animais, transformar a indignação em ação contínua para garantir que as futuras gerações possam conhecer a riqueza da fauna brasileira fora das páginas de um relatório policial?
Fontes: As estimativas e dados numéricos citados sobre o volume financeiro do tráfico e o percentual de mortes são baseados em relatórios amplamente divulgados pelo RENCTAS (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres) e em informações fornecidas pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e seus centros de triagem. A legislação citada é a Lei 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais).
Por MB.
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